segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Entre Tecidos


As fibras de teu corpo entretecidas em mim criam uma trama que me desnuda, ao invés de me cobrir. Sou colcha de teus retalhos, deixei que imprimisses em mim tuas cores e formas para te ter comigo, não importa onde eu esteja nem onde fores. Me deixei ficar ao teu lado, que caminhássemos lado a lado. Deixei que teus dedos fossem pincéis a desenhar girassóis sobre meu torso nu, que os teus olhos me banhassem e tuas palavras me cobrissem. Deixei que teu olhar se demorasse, se derramassem em aquarelas. Me deixei inteira ser tua tela.
Deixei que teu beijos minúsculos decalcassem em meu corpo sonetos, verso a verso, que tirasses de meus lábios musica e melodia, me deixei totalmente ser tua poesia.
Deixo que teu silêncio me complete, que tuas lembranças me lavem os olhos, que seja balsamo e maresia. Deixo seguir esse ser não sendo, esse mais bem realizado não acontecido, me deixo ser sua, mesmo sem ter sido.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Filhos terceirizados



A vida moderna está cada vez mais exigente. É preciso ir para a faculdade, fazer pós graduação, cursos e, para manter esse padrão moderno de vida, é preciso trabalhar. Nunca se trabalhou tanto. O mercado é competitivo, a concorrência é desleal e só há lugar ao sol para os melhores, leia-se aqui, para aqueles que trabalham de dez a doze horas por dia, no mínimo, desconhecem feriados, dias santos e finais de semana. É preciso ser o melhor para ter o melhor, melhor esse que, na maioria dos casos, nem chega a ser desfrutado, pois o tempo curto não permite tais futilidades.
As agendas estão cada vez mais apertadas, homens e mulheres de negócio, super profissionais do século XXI, brigam cotidianamente contra o tempo. Em virtude disso, muitas atribuições, que antes eram pessoais, acabam sendo delegadas a terceiros. Existem hoje, profissionais especializados para escolher desde a roupa que a pessoa vai usar, que moveis comprar, até o que comer. Preocupar-se com esses detalhes tornou-se perda de tempo. Atualmente, terceiriza-se tudo, inclusive a educação dos filhos.
Daqui a algum tempo, teremos a geração babá, dos filhos que foram criados com pouco ou nenhum contato com os pais. Basta observar a franca expansão das escolas em tempo integral, dos cursos de idiomas, esportes, artes, voltada para um publico alvo de crianças e adolescentes. Pais sem tempo para serem pais, cuidam de preencher também a agenda dos filhos. O que me preocupa é que tipo de formação moral essa geração está tendo, qual conceito de família estão desenvolvendo, quais os valores que estão adquirindo. Será que essa educação terceirizada pode substituir as relações familiares? Aquelas, tão em voga no século passado e que hoje mais parecem tema de historias da Carochinha.
Outro dia, em meio a uma conversa com um aluno um tanto indisciplinado, disse-lhe que se continuasse com aquele mau comportamento eu seria obrigada a conversar com seus pais, ele olhando para o nada, me desejou boa sorte e disse que está tentando fazer isso há anos.
A maioria dos pais já não comparece às reuniões escolares, é notável o aglomerado de vans na porta das escolas, pois os pais já não dispõem de tempo para levar e buscar os filhos à escola. Pais e filhos estão cada vez mais distantes, estranhos ligados por um laço de sangue e nada mais.
Uma vez, ouvi em uma palestra ministrada por uma psicopedagoga a historia “do nó na ponta do lençol”. Um certo pai, que trabalhava muito, não tinha tempo para ver os filhos pois saía muito cedo para trabalhar e só voltava tarde da noite. Ele sempre beijava os filhos ao sair e ao chegar, para que soubessem que ele estivera ali, todos os dias dava um nó na ponta do lençol de cada um dos filhos. Era a sua maneira de se fazer presente. Ao final da historia, todos aplaudiram, emocionadíssimos.
Me desculpem os partidários dessa pratica, mas nó na ponta do lençol não educa, não forma cidadãos, não transmite valores, não substitui a presença materna e paterna. O nó no lençol não serve como modelo, como exemplo a ser seguido, dificilmente será a partir dele que uma criança decidirá ser “igual aos pais quando crescer”.
Talvez essa transferência da responsabilidade de educar os filhos a terceiros seja uma das prováveis causas dessa geração tão perdida, vazia, carente, irresponsável e imatura. Está faltando a base, os pilares da formação de qualquer individuo, a família, essa instituição cada vez mais fragilizada, da qual já sentimos uma falta absurda.
Em minha opinião, quem tem tempo apenas para dar um nó na ponta do lençol, deveria repensar a idéia de ter filhos pois, mais pra frente, os estragos serão bem mais difíceis de consertar e um nó na ponta do lençol pode não bastar para solucioná-los.





quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O futuro da Nação


A cada dia, me torno mais cética em relação a um futuro promissor para a sociedade. Confesso que fico insegura e amedrontada, quase em pânico mesmo, quando imagino que essa geração “junk food”, é o futuro da minha Nação.
Como educadora, sofro em dobro diante da falta de perspectivas, de senso de responsabilidade, criticidade e maturidade da maioria dos jovens e adolescentes. Uma geração imediatista, muitas vezes fútil, em que a palavra futuro, significa, no máximo, a festinha que vai rolar em alguns dias. Sinto falta do tempo em que, quando questionadas sobre o que queriam ser quando crescessem, as crianças tinham, na ponta da língua, uma resposta rápida, embora nem sempre certeira, e isso nem foi há tanto tempo assim. Hoje, a maioria dos jovens “ainda não pensou sobre isso” ou simplesmente “não sabem”.
O futuro da Nação, ao que tudo indica, será uma geração forjada no esquema “pagou passou” de muitas instituições educacionais, a geração educada pelas babás, dos pais que trabalham doze horas por dia e encarregam terceiros da educação dos filhos, dos pais que acham que dar uma boa educação é pagar uma escola cara e que compensam as horas de ausência com cartões de credito. O futuro da Nação é uma geração de alunos problema, filhos problema, cidadãos problema.
Lembro que há algum tempo, em uma sala de aula, o aluno problemático, que provocava brigas e não fazia lições era uma exceção, aquele caso raro, um por sala de aula. Hoje, exceção é aquele que se dedica, tem sonhos, planos e pensa no futuro. O caso raro, raríssimo, por sinal, é um adolescente com um nível de conhecimento que vá além da biografia de algum astro pop, cujo motivo para viver não seja ostentar roupas de grife, desfilar no shopping, beber até cair ou, por modismo, praticar atos ilícitos em companhia de uma turba de igual filosofia de vida.
É essa geração, cuja aprovação escolar é mediada e garantida pelo poder aquisitivo dos pais, sem nenhum ou pouco preparo emocional, psíquico e intelectual, que pelos mesmos caminhos escusos que passaram pelo ensino fundamental e médio, adentrarão as faculdades da vida, obterão seus diplomas e, muito em breve, estarão clinicando, advogando e lecionando. Essa geração ocupará os cargos políticos (com ainda mais representatividade), essa geração continuará tecendo outras gerações.
A menos que surjam novos mártires, que haja uma retomada nos padrões éticos e morais, sobretudo nas instituições educacionais, a menos que haja um milagre, eis minha visão, que muitos teimam em chamar e de pessimista, mas a mim, apenas realista, do futuro da Nação.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Amor Gourmet

Penso que os homens que cozinham devem ser perfeitos amantes. Coisa minha, achismo sem comprovação empírica, cisma, talvez fetiche.
Ambas as artes, cozinhar e amar, exigem de quem as pratica muita sensibilidade, dedicação, contínuas pesquisas e experimentos. Há que se descobrir sabores, inventar misturas, saber a dose certa de cada ingrediente. No amor e na culinária, tudo tem sua medida certa e, se porventura algum equívoco acontece, pode-se desandar toda a receita.
Basta imaginar um homem preparando uma receita e fica fácil concluir que aquele ritual se repete em todas as coisas que ele faz, inclusive quando faz amor. A escolha dos ingredientes sugere que ele é criterioso, as mãos hábeis no manejo dos utensílios, são leves ou firmes a depender da necessidade. Ele escolhe seus apetrechos como quem escolhe os carinhos e veredas do corpo da amada. Se for preciso amacia, espera apurar, com a paciência de quem sabe que todo prato tem seu tempo de preparo. O bom amante, assim como o bom cozinheiro, sabe a hora do fogo brando, do banho maria e a hora de riscar o fósforo e deixar flambar, consumir-se em chamas. Ele não se contenta em fazer feijão com arroz quando pode produzir um banquete para cem talheres.
Um bom cozinheiro não come, ele degusta, saboreia, conhece os acompanhamentos perfeitos para cada prato e cada ocasião, assim como o bom amante é sensível aos desejos de cada fêmea. Ambos precisar saber quando utilizar um ingrediente mais forte, mais picante, para realçar ou valorizar o resultado final.
O cozinheiro orgulha-se da receita finalizada, o amante, da mulher satisfeita.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Ana Luz



 
Ana para diante da porta, confere o numero, alisa a roupa no corpo, ajeita os cabelos, respira fundo. Aperta o botão da campanhia. Espera, aperta novamente, no exato momento em que a porta se abre. O homem a olha de baixo para cima, mede cada centímetro do seu corpo, um esboço de riso risca sua face quando encontra a de Ana.
_Parece que dessa vez acertaram! Vamos, vai ficar parada aí?
O apartamento estava imundo, um cheiro nauseante de cigarros e bebida impregnava o ambiente, roupas jogada, garrafas vazias, revistas pornográficas compunham a decoração do lugar. O morador estava visivelmente bêbado ou drogado ou os dois. A voz era quase um grunhido e olhar guloso parecia grudado em Ana. Ele fedia tanto quanto o apartamento.
_Posso ir ao banheiro? Perguntou fingindo indiferença. Ela precisava agir com profissionalismo. Não existiam clientes bons ou ruins, existiam apenas clientes.
_Se quiser... Mas só começo contar o tempo quando você voltar.
Ela deu de ombros e seguiu até o cômodo que ele indicara, tão imundo quanto o resto. Esfregou o espelho com as costas das mãos e viu seu reflexo embaçado. O rosto exageradamente maquiado, conselho de Madame Amélie, “os homens não pagam querida, para ver o mesmo que têm em casa”. A farta cabeleira crespa emoldurava o rosto de traços fortes, o nariz atrevido, os olhos cor de mel que se destacavam no negro rosto, olhos que lhe renderam o nome de batismo, Ana Luz.
Abre a pequena bolsa, retira um recipiente, limpa como pode uma parte do lavabo e prepara uma carreira de pó branco, fecha os olhos e aspira, a carreira desaparece por sua narina. Não se considera viciada, este é um recurso utilizado somente para os clientes que não se pode enfrentar de “cara limpa”. Olha-se mais uma vez, quase que instantaneamente os olhos se tornam opacos, as pupilas enormes. Não gosta daquela sensação de cair em um buraco negro. Apóia-se na borda do lavabo. Teletransporta-se. Aquelas lembranças sempre voltam quando está entrando no transe causado pela droga. Deixa-se levar, sabe que não adianta resistir. Ouve a voz da mãe, tão longe, sofrida. Ainda criança, a mãe tomando-lhe pela mão, dizendo-lhe para tomar aquela bebida horrível, insistindo por mais um gole, sentia arder a garganta e secar a boca. “Vamos, Ana, só mais um pouco”. O gosto era horrível, sentia queimar as entranhas, logo após, um torpor a lhe tomar o corpo, a cabeça girando, o chão fugindo. A voz de sua mãe agora era confusa, pedaços de frases, conseguia entender apenas uma parte que ela repetia sem parar: “você precisa ficar quieta” e “faça o que ele mandar”.
De repente era conduzida ao quartinho da mãe, havia alguém lá, os olhos embaçados não lhe permitiam distinguir. Por que suas pernas tão fora de controle e não lhe obedeciam? Força mais um pouco a visão, ele era tão familiar... Mas o cheiro, ah! Aquele cheiro conhecia.
_Benção, meu padrinho.
Balbucia com a voz enrolada. Ele a toma pela mão, a mãe sai. Estaria chorando? Está tudo tão confuso. “Faça o que ele mandar, Ana”, ouve mais uma vez.
Sentia-se ainda mais confusa, por que ele arrancava sua roupa? As mãos infantis tentavam contê-lo, em vão, ele era tão forte. Debatia-se, tentava gritar, a voz não saía, o corpo mole não obedecia. Ele beijava-lhe a boca, ela sentia enojada, o cheiro do fumo de mascar, quantas vezes ela o preparara. Viu-se atirada com fúria sobre a cama de varas, aquele peso sobre seu corpo, as pernas separadas à força e a dor lancinante que parecia rasgar-lhe em duas partes. Não lembra ao certo quanto tempo aquilo durou, pareceu “apagar” por alguns momentos. Novamente a voz da mãe. Estavam agora sozinhas na choupana miserável, a mãe insistia para se agachasse na bacia de flandres cheia de uma mistura de água e ervas. “Tinha que ser Ana, não fosse ele seria outro, tinha que ser. Não havia jeito, não temos pra onde ir, tinha que ser”, a mãe repetia mais para si mesma que para a filha. Ana voltava a sentir seu corpo, a voz da mãe era clara agora, sentia uma dor terrível entre as pernas, havia sangue.
Dormiu mal, ouvia o choro da mãe, a cabeça ainda girava, os sonhos foram confusos, “tinha que ser, tinha que ser”, a frase martelava em sua cabeça.
Acordou tarde, deu por falta da mãe, precisava de ajuda, sentiu muitas dores ao urinar, precisava da mãe, devia estar doente. Foi encontrá-la pendurada no velho cajueiro, um lençol amarrado ao pescoço. Morta.
_Vem ou não vem?
A voz do outro lado da porta a trouxe de volta. Olhou-se mais uma vez, conferiu os preservativos na bolsa. Saiu do banheiro.
Novamente sentiria aquele peso sobre seu corpo, aquele cheiro de fumo, aquela invasão entre as pernas. Agora ela sabia o que estava acontecendo e, mais uma vez, lembraria da voz da mãe e repetiria para si mesma, como havia feito durante todos aqueles anos: “Tinha que ser, tinha que ser”.



domingo, 12 de setembro de 2010

Mainha

Depois de tantos sóis, finalmente chegam ao papel os versos que inúmeras vezes morreram em minha garganta. Afrouxados os nós do apego, abrandado o choro insistente de lembrar de ti, esses versos agora brotam e escorregam dengosos, suaves e macios, como você. Irrompem dos soluços para falar de ti, mainha, de minhas saudades e de meu querer bem.
Hoje já consigo falar teu nome, evocar tua risada boa e apagar aquela imagem triste dos nossos últimos dias. Trago a lembrança tua, logo de manhã cedo desperta, dizendo que “faz mal deixar o sol passar sobre nossa cabeça com a gente ainda dormindo”, coisa tua, dos teus dizeres e superstições.
Agora te entendo tão bem, as chatices, as preocupações, o teu jeito próprio de amar e de ser carinhosa. Como você soube ser mãe! Com que bravura desempenhou o duplo papel, pai e mãe. Tanta coisa tua que demorou a fazer sentido para mim. Sei que quando dizia “como depois”, na verdade não comia. O pão era pouco e muitos os filhos. Sei que chorava escondido, mas, mesmo em tempos difíceis, não te falhava o sorriso.
Lembro de você desesperada, a correr o Paraguaçu, com a vara de goiabeira em riste, em busca dessa sua ovelha que todos os dias se desgarrava e, quando finalmente me encontrava, em banhos de rio ou outras aprontações junto com os moleques, dava um suspiro de alivio por me constatar viva, o que é claro, não me livrava dos açoites.
Era grande o teu medo que eu me perdesse, era grande o teu medo de que qualquer uma das tuas crias se perdesse, por isso sempre ia nos buscar, mesmo quando dizia lavar as mãos e “entregar pra Deus”. Sei que nos meus momentos de rebeldia, se aproximava de minha cama e, enquanto eu fingia dormir, colocava a mão sobre minha cabeça e orava por mim. Era louco nosso caso de amor, eu te deixava louca com meu gênio ruim, que você, não sei porque, atribuía à minha família paterna.
Lembro de sua voz emocionada a me dizer que nasci em um dia das mães, de como sempre fui inteligente, atrevida e geniosa, de como fui precoce em tudo, inclusive na necessidade de levar palmadas.
Foram tantos nossos perrengues, eu visionária, querendo voar sozinha. Você, interiorana, conservadora, mãe à moda antiga, me querendo sob suas asas. Por tantas vezes, pareceu que falávamos línguas completamente diferentes. Fico feliz que tenhas vivido pra ver que o caminho que escolhi me levou onde eu queria, que ao contrário dos teus medos, não me feri com gravidade nem sofri fraturas irremediáveis. Fico feliz também, por ter te falado do meu amor, gratidão, respeito, amizade e reconhecimento, por ter te feito saber que fostes a melhor mãe que eu poderia ter, que me fez a mulher que sou, me ensinou valores, uma mãe que, admito, nunca terei capacidade de ser.


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Desamor


Assim como, na maioria das vezes, não se sabe ao certo quando se começa amar, não se sabe quando deixa de amar. O processo de desamar parece seguir as mesmas regras. É difícil precisar quando aquele leve aumento no ritmo cardíaco virou borboletas no estomago, suores, tremores nas mãos e falta de ar. Quase impossível lembrar quais gestos ou palavras nos fizeram ter certeza de aquela era a pessoa com quem queríamos passar o resto da vida. Da mesma forma, é quase impossível dizer quando amor acaba. Pois sim, ele acaba.
Amor não é auto-suficiente, assim como não surge espontaneamente e precisa ser provocado para acontecer, também precisa ser provocado a continuar existindo. Ele não é um cacto, capaz de sobreviver a imensos períodos de seca e voltar a florir às primeiras chuvas. Desconfio que o amor seja uma daquelas plantinhas cheias de frescuras, que não pode ser aguada demais senão “afoga”, nem de menos, para que não seque, que precisa de sol e escuridão na dose certa e que, de tempos em tempos tem que ser limpa das ervas daninhas. O amor morre de sede e de inanição. O perigo é que nem sempre percebe-se o processo, ele vai definhando devagar e silenciosamente, quando se dá conta já não há como salvá-lo.
O poeta Virgilio escreveu “o amor tudo vence”, me atrevo a completar com: “menos à falta de amor”. Não se ama sozinho.
Um dia dá-se conta que ele não está mais lá, há apenas um vazio ou uma grande interrogação. Quando começaram rarear os elogios? Quando o beijo tornou-se mecânico? Quando o estar junto passou a ser apenas cômodo? Quando sumiram as borboletas do estomago? Quando o “eu te amo” começou a morrer na garganta?
Nunca sabemos o lugar, a hora, o momento exato em que se começa desamar, não se sabe quando caiu a primeira peça e deu-se inicio ao efeito dominó. Sabe-se apenas que, um dia sentimos falta do amor, procuramos por ele e já não o encontramos. Partiu-se em mil fragmentos de desamores, impossível de juntar novamente e colar. Não há cola para amor em migalhas e ainda que houvesse, amor remendado não serve.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Berlinda

Inevitavelmente chega aquele momento de sua existência, quando você se acha gente grande e dono do próprio do nariz, em que a vida te apronta o que eu chamo de “a maior das sacanagens”. Depois de ter penado muito, e já se acostumando com o que chamam de situação confortável, aí vem ela e te puxa o tapete.
A coisa vem meio de mansinho, pouco tempo depois que se começa a achar que está tudo bem. Um belo dia você acorda com aquele comichão, aquela sensaçãozinha chata de falta de alguma coisa, semelhante ao que acontece quando se tem fome, mas não do que temos na despensa. Você não sabe o que deseja, sabe apenas que não o tem. Primeiro vem a angustia, o inferno da busca, da vontade do que não se sabe, depois a culpa, aí você se pergunta o que te falta e, finalmente descobre que é daquelas pessoas que não nasceram para sonhos realizados e sim para a busca eterna do “algo mais.”
Mas como abrir mão do que se tem para empreender outra grande navegação sem que te suponham louco?Como partir as ligas que teimam em te calcificar ao solo? Como vencer aquela outra parte do seu ser, chamada razão, que freia o tempo inteiro tuas decisões passionais?
E essa é a grande sacanagem da vida, a berlinda, bifurcação. Quando você quer o doce e quer ficar com o dinheiro. Quando finalmente descobre que não existe o tal caminho do meio, só a direita e a esquerda. Você, a beira do penhasco, sem para quedas, sem saber se há redes de proteção, brigando entre o desejo de voar e o medo de quebrar as asas. Difícil escolha entre a chata e tediosa certeza ou a imensidão do abismo, atraente, deliciosamente perturbadora, que te desperta todas as fibras do corpo e te tira o sono.
Algumas pessoas se jogam de cabeça, mas somente algumas. A maioria, a esmagadora maioria, evita voltar ao penhasco. Nem todo mundo consegue “largar tudo e virar hippie”, por isso sempre existirão os empregos odiados, os casamentos de aparências, as relações falidas e os milhões de pessoas infelizes, por isso ainda existem suicidas e o mal do século é a depressão.
Confesso que tenho um medo danado dessa vontade de pular do abismo, sei que mais cedo ou mais tarde acabo indo, talvez quebre mais uma vez as asas, ganhe mais algumas cicatrizes. Sei que talvez me arrependa muito ou não.
O fato é que sempre acabo indo, sempre acabo pulando de cabeça, só porque não sei ser infeliz.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A beleza do que não sou


Admiro a sutileza, quem consegue dizer coisas banais de um jeito mágico, poético, quem tira lirismo das tragédias cotidianas, enxerga o copo sempre meio cheio e extrai a beleza das coisas como se extrai o remédio da peçonha de alguns animais. Gosto dos desenhos, dos painéis irisados, dos textos cheios de sons, escritos para se ler, comer, sentir e cheirar, que de tão leves parecem flutuar, escorregar, derramar pelo papel, penetrando em minha pele, misturando-se à corrente sanguínea me deixando impregnada da leitura e com a sensação de mãos cheias de bonitezas e deleites.
Eu sou do tipo estabanada, aquela do “pronto, falei!” vai ver é porque a força, a agressividade, a doçura de fel que há em mim, não possa ser contida, aí extravasa pelos dedos e ganha o mundo. O texto vai assim, como um rio de lava, abrindo caminho e deixando marcas. Muitos nascem de violentas erupções. Não tenho heterônimos, eu poético, quase todos são autobiográficos, a maioria, impublicável, ou talvez, um excelente material para publicação póstuma. Sou um vinho virado vinagre.
O lirismo não me sorriu, a Musa não me deu trela, sobrou-me o texto seco, desprovido de meandros e subterfúgios, textos nascidos e mantidos nus, não têm manto que os cubra, suas vergonhas expostas e, quando (e sempre) existem, também as chagas.


Dedico esse post à querida Keudevir , cujo texto supre minha necessidade vital de boniteza e poesia.





terça-feira, 17 de agosto de 2010

Já saímos das senzalas

Depois de mais de 120 anos, ainda há quem não tenha percebido que saímos das senzalas. Vejo com um quê de surrealismo o comportamento de algumas pessoas que se quedam completamente pasmas ao saber que é um negro quem ocupa determinado de cargo de chefia, que perdem as palavras ao entrar em um consultório medico e constatam que serão atendidas por um (a) profissional negro (a).
Passado tanto tempo, ainda causa espanto que não estejamos apenas em sub-empregos, que não andemos mais de pé descalço, vestindo trapos de aniagem. Ainda somos atração nos redutos elitizados, nos condomínios de luxo, nas universidades e demais locais freqüentados por intelectuais. Ainda é motivo de escarcéu um presidente negro eleito, como se a abolição da escravatura fosse um bebê recém nascido e não uma senhora centenária.
Esta semana, (quero crer que devido à urucubaca da sexta feira treze) duas situações me chamaram á atenção para esse persistente e insistente modus vivendi da nossa sociedade. A primeira foi a caminho do trabalho, de jeans, camiseta, tênis, jaqueta e mochila, fui parada em uma blitz policial, como dizemos em baianês corrente, era meu primeiro “baculejo”. A policial grosseiramente, mandou que encostasse na viatura, exigiu meus documentos e esvaziou o conteúdo da mochila no chão. Perdeu metade da confiança quando viu meus livros caindo da mochila, a outra metade, quando perguntou se eu era estudante e respondi, senhora da situação: na verdade, senhora, sou pós graduanda. Juro que não consigo descrever o semblante dela no momento, uma mistura de surpresa e incredulidade. Em seu socorro veio o superior, desculpou-se, disse-me que deveria ter avisado que sou universitária e professora. Perguntei se uma empregada doméstica analfabeta merecia menos respeito que eu, se devia carregar meu diploma, assim como os negros forros carregavam suas cartas de alforria. Não houve resposta, apenas um roto pedido de desculpas. Ser negro, ainda é uma atitude suspeita. Ah! A policial é negra, assim como o eram os capitães do mato e alguns feitores.
A segunda situação aconteceu em minha casa. Uma jovem recenseadora do IBGE chegou ao condomínio (quem nem é de luxo) para fazer seu trabalho. Para em frente à minha casa, dirige-me um seco bom dia e me pergunta se os donos da casa estão. Penso que o fato de eu estar varrendo a garagem tenha perturbado um pouco os critérios de julgamento da criatura. Respirei fundo, tentei não lembrar da policial e prometi a mim mesma não criar um caso. Respondi que sim, a dona da casa estava, convidei a moça a entrar, ofereci uma cadeira, sentei-me à sua frente e disse-lhe que podia continuar seu trabalho. Ela não entendeu a sutileza. Mas você é a dona da casa? Insistiu. Perdi a calma, olhei nos olhos dela e respondi: Não, eu sou paranormal, através das vibrações do ambiente sou capaz de lhe informar tudo sobre os moradores daqui, desta e de outras vidas.
Pediu desculpas, enrolou-se com as perguntas, na saída, agradeceu e desculpou-se novamente, disse-lhe: “tudo bem, você certamente não é a única ignorante que pensa que um negro com uma vassoura em frente a uma boa casa seja empregado”. Ela se foi de olhos baixos. A moça do censo, que não prima pelo bom senso, também é negra.
Chego á triste conclusão de que precisaremos de mais uns tantos séculos para que a sociedade “caia na real”, para que eu deixe de ouvir frases como “você que é a professora?” ditas com tanta incredulidade e desconfiança, para que as pessoas deixem de ser suspeitos em potencial por causa da cor da pele, pois como disse D. Basílio do Nascimento, “é a realidade e não se pode mudar as mentalidades por decreto. Esperemos que a nova geração que aí vem seja formada de uma outra maneira, tenha consciência da realidade, mas, sem dúvida nenhuma, vai levar tempo.”
Esperemos pois, mas não o façamos passivamente, há muito pelo que brigar, há muito pelo que se impor, ainda há muito a ser conquistado.

domingo, 15 de agosto de 2010

Fale a verdade ou tenha amigos



Definitivamente, não dá para ser cem por cento verdadeiro e conservar as amizades. É incrível como as pessoas (inclusive eu) têm dificuldades para lidar com a realidade, aquela, vedete de revista masculina, nua e crua.
Quem vai visitar uma amiga recém parida e tem coragem de responder sinceramente à terrível pergunta que só se faz a uma amiga intima e quase irmã: você acha que estou muito gorda? Ou de contrariar a afirmação materna sobre o joelhinho agasalhado no berço: Ele não é lindo?
Pois é, falar a verdade nesses momentos pode causar não só um rompimento doloroso como uma depressão pós parto.
Uma vez fui convidada para uma festa de aniversário do filho de uma amiga, o detalhe é que não tenho filhos, aliás, a única do grupo da adolescência que ainda não procriou. Ela me liga, toda feliz e radiante por comemorar o primeiro aniversário do rebento e, deixa claro o tamanho da importância da minha presença lá. Pra começo de conversa, acho uma tremenda bobagem aniversário de um ano, a criança é ainda um bebê, só vai ser estressada pela quantidade enorme de pessoas desconhecidas, pelo barulho que vai atrapalhar sua rotina, pela fantasia, digo roupa, que vai ter que usar, pelos adultos no sense que vão apertá-la, carregá-la no colo, no meio de tudo isso o choro do aniversariante é quase inevitável e, na totalidade dos casos, ele nem sabe que cargas d’água significa toda aquela aporrinhação.
Imagina o incidente diplomático que causaria se revelasse o motivo de minha pouca motivação para comparecer ao evento festivo? Preferi é claro, usar uma das muitas mentiras que semeamos ao longo da nossa vida em prol da manutenção de nossas relações sociais. Alguns anos depois, acabei falando a verdade (e ela concordou comigo) mas ali, na hora, com ela no grau maximo da emplogação,seria fatal.
Mentimos ao responder que está tudo bem quando a vida tá um caos, quando parabenizamos a amiga que anuncia o casamento com aquele carinha mais ou menos, quando estamos naquela festa chatíssima e o anfitrião nos pergunta se estamos gostando. Mentimos quando aquela pessoa inconveniente nos pergunta por que nunca a convidamos para ir à nossa casa e mentimos ao responder que “qualquer dia” iremos à casa dela. Enfim, mentimos porque, na maioria dos casos, falar a verdade é grosseiro e mal educado.
Mentimos para ensinar às crianças que não se deve mentir – Olha, seu nariz vai crescer!- mentimos para salvar nossa pele, para não magoar nem ofender às criaturas mais sensíveis. Mentimos porque entendemos que, quando aquela amiga querida nos pergunta “meu cabelo está horrível né?” na verdade ela quer ouvir uma palavra de apoio e incentivo, tipo “Olha, até que não está ruim...” mentimos porque somos sensíveis e seres altamente sociais, se só falássemos a verdade, toda sociedade ruiria.
Quando uma pessoa me pede para ser totalmente sincera, desconfio no ato. Geralmente elas já sabem a resposta, e apenas procuram a quem odiar por verbalizar a verdade maldita e inevitável.
Confesso que já fui mais sincera, e tinha bem menos amigos, nenhuma amizade resistia aos meus ataques de sinceridade, às resposta certeiras. Entendi que, em alguns casos, a verdade é apenas um acessório e não um termo essencial para as boas relações sociais. Aprendi a viver, ou seja, a mentir em sociedade.
P.S. Acho que até que não deveria ter sido tão verdadeira.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Norma Ativa II


Em um pretérito mais que perfeito, eu amara. Nunca, em qualquer tempo ou modo, um sujeito foi tão explícito e os verbos tão abundantes. De tão ativos, éramos capazes de qualquer flexão. Nós dois, exceção da regra, sempre adjuntos, concordávamos por atração.
Por conta de uma irregularidade, agora falamos diferentes línguas, seguimos outras cartilhas. É hora de nos propormos um novo acordo, antes que venha o ponto final.

sábado, 31 de julho de 2010

Norma Ativa

Minha vida anda cheia de incoerências gramaticais. Estou cada vez mais anômala, defectiva. Em um período composto por tantas reticências, ninguém consegue me conjugar. Talvez porque seja muito irregular. Faltam-me predicativos, o que torna os sujeitos cada dia mais ocultos ou até inexistentes. Preciso me valer das orações ou então fazer analise: sintática e morfológica, se bem que ando desconfiada de que, o que me falta mesmo é uma boa colocação pronominal, em mesóclise, de preferência.
Os adjuntos estão cada vez mais restritivos, quando aparecem, é um verdadeiro fenômeno da natureza! Meu pretérito é sempre imperfeito. Ah que saudade de uma conjunção, de um bom objeto direto. Eu quero mais verbos abundantes, significativos, pelo menos de ligação. Só me resta aproveitar os poucos artigos que ainda me sobraram.
Juro que não estou fazendo gênero nem numero, mas minha vida, antes tão plural é hoje reles singular, faltam-me exclamações e sobram interrogações. Não tenho nem mesmo uma interjeiçãozinha de espanto.
Penso em tentar uma variação lingüística, sei lá, mudar de ares. Não ando em situação de escolher muito, que venha mesmo fora do padrão, o importante é a conjunção!
Quanto às pre posições, é bom que haja antes uma concordancia verbal, o mesmo vale para o uso dos acessórios.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Professemos


Outro dia me perguntaram por que uma pessoa escolhe ser professor. Não sei. Eu não escolhi, estou certa de que fui escolhida, assim, por alguma força sobrenatural. Quando criança meu sonho era ser rica e importante, mas como diz o adágio, Deus não dá asa a cobra. Então, Ele (parafraseando Drummond) decidiu: vai Viviane, ser professora na vida.
Dificilmente um professor enriquece ou ganha status, quase nunca é respeitado ou recebe o reconhecimento que merece, somos os pilares invisíveis da sociedade, sustentamos, desempenhamos um papel vital, no entanto, não somos vistos ou sequer lembrados. Ninguém em sã consciência escolheria ser professor, os que o são devem ser loucos ou vocacionados e os melhores são uma mistura dos dois.
Mas, graças a Deus, nem tudo é tragédia, amo o que faço e faço bem, das lagrimas de frustração aos momentos mais surreais, os meus melhores e piores momentos, foram sem duvida, vividos em sala de aula. Lá que me sinto em casa, pisando em meus domínios.
Acho injusto só reclamar, vale a pena dizer que passo bons momentos ao lado dos meus alunos, que a sala dos professores quase não é freqüentada por mim. Gasto meus intervalos falando de games, em seriíssimas discussões sobre Cavaleiros do Zodíaco ser melhor que Dragon Ball Z e infinitamente melhor que Dragon Ball GT, brigando com quem achou Percy Jackson e o ladrão de raios melhor que O Príncipe da Pérsia, trocando animes e mangás com os garotos, comentando o último episódio de CSI, aconselhando as meninas sobre os garotos e vice versa, enfrentado a fúria delas quando digo que odeio Crepúsculo ou enviando e recebendo arquivos no sense pelo celular.
Me sinto profundamente feliz em ser chamada pelos alunos de “minha linda” e chamá-los “meus queridinhos”, amo rir e me divertir com eles, me emociono quando ganho bilhetes perfumados e coloridos, entregues ao fim da aula com a expressa recomendação “pró, não é pra ler agora não! Só lê quando chegar em casa”, abri-los e decodificar naquele emaranhado de desenhos, adesivos e letrinhas infantis a frase “ Pró, eu te amo”. Acho muito louca essa nossa relação que vai a extremos em fração de segundos. O mesmo aluno que ficou sem intervalo, certamente me maldizendo, é o mesmo que se oferece, todo prestimoso, para carregar meus livros ao final da aula. Nesse relacionamento tão passional, as raivas não duram, nem de um lado nem do outro.
Fico feliz com cada aluno que avança, com cada pedrinha posta no alicerce do aprendizado, a cada livro lido e discutido com prazer, a cada solicitação de novas leituras, a cada flor de hibisco arrancada pelo caminho e trazida já murchinha para minha mesa.
Me divirto pra valer nas aulas do pré vestibular, fico radiante em responder ao sem numero de duvidas e curiosidades, amo ouvir “essa pró é doida”. Gosto de ser abordada pelos corredores para tirar duvidas, de ser acompanhada até o ponto de ônibus em bate papos informais que, às vezes, rendem mais que a aula propriamente dita. Curto nosso papos de ponto de ônibus, em linguagem informal, legitimo baianês corrente nas ruas e nos guetos. A aula do ponto de ônibus, como eles batizaram, dispensa a língua vernácula, sou melhor entendida quando digo que “Gregório de Matos é o cara do barroco, porque detonava geral a galera do poder”, antes que o normativos me apedrejem, nunca deixo de falar sobre a importância da Norma, filha de D. Diz Gramática.
Como bem definiu a Professora Doutora Alana el Fahl, conheço as dores e delicias do magistério. Quero continuar a vivê-las, quero o doce, suporto o amargo, vou assim sendo, pois de outra forma eu não saberia ser. Sou professora para poder ser sempre aprendiz, para me reencontrar criança em cada aluno, para descobrir neles amigos. Apesar de todos os pesares, sou professora, amo minha profissão, amo “meus queridinhos” que me enlouquecem, me desesperam e me realizam e tenho muito orgulho de tudo isso. Aos loucos e/ou vocacionados escolhidos pelo destino, façamos o que melhor sabemos. Professemos.



segunda-feira, 26 de julho de 2010

Veneno

_Pimentah , conheci uma garota...

_Hum, bonitinha?

_Linda!

_Ah, então deve ser burra...

_Na verdade, ela é PHd.

_Aff, deve ser chaaaaata.

_Adora piadas e tem um ótimo senso de humor.

_Essas, são as piores, provavelmente é mau caráter e egoísta.

_Ela faz trabalhos voluntários aos fins de semana.

_Vai fazer jogo duro, botar a maior banca.

_Eu já peguei.

_Aha! Aposto que é frígida.

_Bom, ela teve orgasmos múltiplos.

_Certamente fingiu.

_Algumas coisas sabe, reações físicas, evidencias, se é que me entende, não dá pra fingir.

_Cuidado viu, ela deve ser dessas gangues que aplicam golpes.

_Mas eu sou pobre.

_Acorda, deixa de ser babaca. Essa mulher é falsa.

_Como você pode ter tanta certeza?

_Porque se eu tivesse um clone, com certeza saberia!

Para Isa Tucci, que só pra me matar de raiva, é linda, inteligente e gente boa.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Eu, livro e capa


As pessoas têm memória curta, fato! Às vésperas da minha colação de grau, já emendando uma pós graduação, começa a tarefa indigesta de convidar algumas pessoas para a cerimônia. Nesse dia tive noção de como  elas têm memória fraca ou então, muita cara de pau!
Quando eu era criança, os vizinhos e parentes tinham uma opinião quase unânime sobre mim: isso não vai ser coisa preste! Ok, admito que era meio moleque (no masculino mesmo), chegando ao cumulo de que, algumas pessoas nem sabiam que eu era menina, pois escondia meus vestidos em lugar super secreto e vestia as roupas reserva que meu irmão levava por baixo das dele, e assim gastei a infância, em brincadeiras de moleque, ou bem baianamente dizendo, solta de corda e canga, perdida na buraqueira.
Foram incontáveis surras e castigos inenarráveis até que minha mãe me “entregasse nas mãos de Deus” e se resignasse a esperar pelo “pior”, baita contra-senso né?
As pessoas estavam sempre tão ocupadas em me fazer prognósticos funestos, que ninguém percebeu que aprendi ler “de ouvido” aos cinco anos de idade, minha mãe era faxineira em uma escola particular, como não tinha onde me deixar eu ia junto, assim, ouvindo as aulas, sentada no pátio ao lado da sala de aula, aprendi ler e escrever, em um tempo em que, aos cinco anos, as crianças estavam começando na escola. Prestavam mais atenção à minha próxima aprontação, e como eu aprontava. Mas que fique claro, apenas gostava de brincar, correr, nadar, talvez mais que outras crianças, sempre fui superlativa.
Passou-se o tempo e a coisa “piorava”, durante a adolescência, veio o quarteto maravilha, eu, Geisi, Poli e Kelly, fim de semana sim outro sim, estávamos nós onde houvesse uma lata batendo. Os prognósticos pioraram, e muito. Nossa alegria, vivacidade e falta de preocupação com a opinião alheia, incomodava muita gente. Vieram os olhares tortos, as opiniões divergiam em: “isso não vai acabar bem” e “certamente isso não vai acabar bem”. Bom, como sempre fomos do contra, hoje Poli é mestranda em Sistemas Elétricos pela UFBA; Geisi cursa medicina na Universidade de Havana, Cuba; Kelly, enfermagem na UEFS e eu, bem, isso vocês já sabem.
Não sou de me alegrar com as tragédias alheias nem digo isso com jubilo, mas a metade das “santinhas” que tanto nos esfregaram na cara, hoje são mães solteiras, abandonaram a escola e vivem em subempregos.
Nessa sociedade, em que se julga o livro pela capa, nunca fui indício de boa leitura, talvez por não ter sido “igualzinha a todas as meninas da minha idade”, por nunca ter rezado pelas cartilhas, por nunca ter seguido os padrões. Fui considerada rebelde sem causa, apenas porque o desejo de liberdade, de pé descalço no chão, de banho de chuva, falava mais alto que o resto e me arrastava pra gandaia, talvez por rir alto, por brigar, defender minhas opiniões, por falar a verdade (ah, quantos problemas ganhei, quantas surras levei, por falar a verdade). Fui uma “rebelde’ que nunca tomou um porre, não usou drogas nem nunca beijou um desconhecido numa balada.
Autenticidade assusta as pessoas, a falta de máscaras, a cara limpa é que causa desconfiança.
Voltando à tarefa inglória da distribuição dos convites, que fiz em respeito à memória de minha mãe, que ficaria muito triste se eu não o fizesse, cumpro o velho adágio “por causa dos santos, se adoram as pedras”. Sou recebida com sorrisos, abraços, congratulações. A mesma pessoa que traçou meu destino sombrio há tantos anos, me olha nos olhos e diz com a maior emoção do mundo, “eu sempre soube que você teria muito sucesso em sua vida”.
Respondo incontinenti, “eu também, mesmo quando a senhora me dizia o contrário”.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Esse tal padrão de beleza

Depois de mais uma via crucis pelas lojas de cosméticos, resolvo parar em uma das mais bambambans da cidade. Vago aborrecida pelos corredores, procuro insistentemente (e em vão) a ver se alguma marca, atendendo aos meu vários e mails, já lançou uma linha de produtos para cabelos naturalmente pixaim. Sim, porque se encontram produtos para todos os tipos de cabelos, lisos, alisados, secos, molhados, com química, tingidos, cacheados, exceto para os crespos, rebeldes, indomados, ou seja, os meus. Converso com a vendedora, pergunto se fabricam algo do gênero, ele me conduz até a seção dos “cacheados”, olho para ela com meu olhar mais bondoso, aquele que faz murchar pimenteira, gentilmente explico: “Ana Paula Arósio tem cabelo cacheado, o meu é pixaim mesmo”, a mulher me olha como se eu acabasse de me declarar nazista, ou qualquer coisa do gênero. Vai ver ela acha ofensivo ter cabelo pixaim. Em seguida deixo-me conduzir à seção dos “afro”, até que me animo, isso até ler as letras miúdas dos rótulos: “para cabelos danificados e quimicamente tratados”, traduzindo, para “crespas” que queriam ser “lisas” e agora estão com o cabelo detonado. Desisto, me rendo mais uma vez aos produtos para cabelos normais (?), tentando imaginar o que, por definição seria um cabelo normal ou anormal, me convenço que o meu deve ser do tipo anormal, pois a moça que me sorri na embalagem, exibe uma longa cabeleira lisa e esvoaçante.
Vou ao caixa, contrariada mesmo, certas coisas ainda ficam atravessadas na garganta e, se porventura engulo, não consigo digerir. A moça sorridente me comunica que, pelo valor comprado, tenho direito a uma “transformação”, me animo, será que vão me transformar em uma mulher rica, bonita e inteligente?

Sigo uma garota até o salão de beleza que funciona dentro da loja, mais sorrisos me recepcionam, um rapaz me olha com cara de manicure quando olha uma unha encravada e começa a me por a par da situação, se tudo desse certo, em mais ou menos uma hora, eu estaria igualzinha à Rihana, palavras dele, juro! Vai ficar lindo, suspirou afetado, me olhando com a mesma cara que os apóstolos devem ter feito quando disseram ao aleijado: Levanta e anda!

Ele deve ter confundido o meu olhar fulminante com algum tipo de emoção. Esse “vai ficar lindo”, dito assim com tanto entusiasmo, me atingiu com uma bigorna. Fiquei triste, mexida mesmo. Vi com uma nitidez fantástica o quanto as pessoas são influenciadas por essa tal padrão de beleza midiático, o meu cabelo não é lindo, para sê-lo, será preciso um processo químico devastador .

É realmente triste a desvalorização do que é natural, de como ser “normal” perdeu a graça e se tornou um elemento pitoresco. Antes o artificial era que chamava a atenção, hoje atraio olhares por ser, na maioria das vezes, a única “diferente” entre as mulheres em determinados ambientes. Diferente por ser natural.

Engoli a raiva, frustração, sei lá o quê, afinal, brigar com quem? Expliquei que gosto do meu cabelo assim, que o acho lindo e que, se ele pudesse fazer algo para que minha cabeleira se tornasse ainda mais expressiva e opulenta eu aceitaria de bom grado. Saí de lá com algumas dicas e crivada pelos olhares dos curiosos que adorariam ver a tal transformação. Sem duvida me acharam um prato cheio, tipo um poodle preste a virar um Shih-Tzu.

Às vezes até me divirto quando percebo o olhar furioso de algumas mulheres para mim, como se eu fosse uma espécie de traidora, a expor publicamente um tão intimo segredo da maioria das alisadas.

Não levanto bandeira, não sou nenhum tipo de ativista, apenas quero que parem de me empurrar goela a abaixo os padrões, as tendências, os moldes. Eu não quero ser a Rihana, nem parecer com ninguém, quero ter minha cara, meu jeito, quero ser parecida comigo, quero que entendam: eu gosto do meu cabelo pixaim, gosto de ser quem sou e da menina que me olha todos os dias do espelho, não tenho problemas em estar fora dos padrões, e quer saber, abusada e convencida como sou, sou feliz em SER meu próprio padrão.









Segredos





O que dizer, quando me roubastes as palavras



E, enquanto me embriaga com as tuas



Me deixas assim, boba e calada?



O que fazer quando se quer dizer tudo



Sem precisar falar nada?



Como conter o que, por si só



Já não se basta?



O que fazer? O que dizer? Como conter?



Não digo nada, sei que me entendes



Mesmo muda, calada



Não me contenho, sei que me cuidas



Quando estou entregue, derramada



Não nos conceituemos, somos inéditos.



Não nos preocupemos



Em inventar ou descobrir palavras.


Viviane

terça-feira, 13 de julho de 2010

Sou mulher à moda antiga


Numa boa, essa conversa de igualdade de sexos não é pra mim. Podem chamar de retrógrada, alienada ou simplesmente de atrasada, mas ainda acho que homem é homem e mulher é mulher. Defendo a igualdade de direitos, mas nunca a igualdade de sexos. Admito sem problema algum que sou frágil, quero cuidado e proteção de um representante do sexo oposto, me reconheço incapaz de realizar certas atividades tipicamente masculinas, como abrir vidro de conserva, exercer os ofícios de pedreiro e estivador, andar sem camisa em dias de calor e fazer xixi em pé. Aceito humildemente minha inabilidade com raciocínio lógico, a capacidade de me perder a duas quadras de minha casa e a dificuldade homérica em lembrar de um percurso antes de percorrê-lo, pelo menos umas cinqüenta vezes.

Não sou nem quero ser igual a homem algum. Como mulher, já tenho problemas e encargos suficientes, não quero somar a estes os que viriam com essa tal igualdade.

Imagine se depois de sofrer horrores na manicure, de ter um pedaço da alma esfacelado a cada puxada de cera quente em lugares delicados e de difícil acesso, de suportar horas em um salto alto e envergar com garbo e elegância um vestido que faz morrer de frio, depois de ter passando metade do dia brigando com o cabelo para que ele finalmente fique do jeito que gosto, depois de ter despendido meia hora fazendo a maquiagem que pouco tempo depois irei levar mais meia hora pra tirar e depois de tudo isso ainda ter que rachar ou pagar ou a conta. Desculpa, eu não sou masoquista!

Eu mereço contas pagas, portas abertas, cadeiras puxadas, flores, presentes, dengos, mimos e cada elogio. Eu sou sexo frágil!

Gosto da diferença, da completude, dessa coisa caramelo meio a meio, não acho bacana mulher macho, durona e sisuda que, infelizmente está contribuindo para o desaparecimento do cavalheirismo, não existe cavalheiro sem dama. Assim como também não curto essa onda de (kilo) metrossexual, não digo que o homem seja um ogro, mas depilar a virilha já é muita informação pra mim. Onde fica a ancestral sensação de pelo na pele? Sério mesmo, em um relacionamento quem usa maquiagem e desenha sobrancelha sou eu. Não me imagino disputando o hidratante para pele sensível com um namorado ou marido.

Eu posso me virar sozinha e cuidar de mim mesma. Posso, mas não quero!

Que fique claro, não estou aqui defendo a inferiorização da mulher nem a supervalorização do homem. Ser feminina, frágil, delicada, sim. Mas não apenas isso. Podemos garotas, conquistar nosso lugar ao sol, ou a chuva de acordo com nossas vontades, podemos exercer cargos de chefia ou qualquer outro e, para tantos temos competência de sobra, o que não podemos é, por conta disso perdermos a leveza e a boniteza de ser mulher. Deixar o encantamento do sorriso e leve balanço no caminhar. Mostrar que temos a mesma competência que os homens não significa que devemos nos masculinizar. O que eu não quero é perder minha graça. O ideal é poder fazer o que quero e gosto, conquistar meu espaço e respeito e o mais importante, usando salto.



domingo, 11 de julho de 2010

Versos para Raphael

Versos para Raphael




Era pra ser uma dedicatória

Acabou virando poema

Fazer o que?

Sou boa de história

E ninguém manda na pena.*

Minha pena tem vida própria

Escorrega, desliza, caminha

Ela que leva minha mão

Ela caminha sozinha

Escreve a imaginação

E cria um mundo só para ti.

Lá você é quem quiser

E a todo lugar podes ir

Podes ser príncipe valente

Podes ser rio corrente

Viver em castelos de areia

Ser encantador de sereias.

Ser pirata, capitão

Voar sem tirar o pé do chão.

Podes inventar uma língua só tua

Podes ser rei da terra e da lua

Podes ser destemido cowboy

Super-poderoso-herói.

Num estalar de dedos

Um novo universo criar

E se ficar entediado

Podes tudo desmanchar.

Podes conhecer o mundo

Este e quantos desejar

E quando, e se quiser

Podes simplesmente voltar.

Eis meu presente pra ti

Tinta, papel e pena

Sonhos, carinhos,

Poema!

Você mesmo um perfeito poema

Divinamente rimado

Pela mão do Mestre criado.

De tudo que eu possa te dar

Eis meu melhor pra você

As coisas que mais gosto no mundo:

Rimar e amar você.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Crônicas tiradas da aula


I
Aluno 1: A pró é Viviane que nem a mulher da novela...
Aluno 2: Eita, que diferença! a pró é..., pró, como é que se diz que a pessoa é preta sem ser xingando?


II

Aluno 1: Pró, sinonimo é quando uma palavra quer dizer a mesma coisa que a outra né?
Professora: Isso mesmo, palavras com mesmo valor semântico.
Aluno 1: porra, a pró falou bonito agora.
Aluno 2: claro né, cavalo! a pró é professora!

domingo, 4 de julho de 2010

cotidiano


_ Boa noite, querido.

_Boa noite, te amo.

_Te amo também..., desliga?

_Ah! não, desliga você.

_Mas eu desliguei ontem.

_E eu nas dez vezes anteriores.

_Poxa, desliga vai.

_Já falei que não quero.

_O que é que custa?

_Porra, você é chata viu. Não desligo e acabou!

_Você é que é um grosso!

_Claro, você acaba a paciência de qualquer um.

_Tá bom, não quer desligar não desliga.

_ (...)

_ Depois não reclama da conta de energia.

_Diabo de mania sua, de esquecer essa lâmpada ligada...

sábado, 3 de julho de 2010

A Venus e as mulheres




Venus nunca foi menina, já nasceu mulher, portanto não conhece a beleza de descobri-se nem de ser descoberta. Ela nasceu perfeita, divina perfeição, o que nunca lhe permitiu o jubilo de aperfeiçoar-se. A mais linda e sensual de todas as deusas e mortais. Venus nunca soube o que é ser bonita somente para alguém em especial.

Venus nasceu pronta, lapidada, não soube o que é ser moldada por mãos habilidosas, nunca soube o que é ser conduzida nem teve despertos seus sentimentos em fúria e fogo, nunca teve rubor nas faces nem sentiu as pernas tremulas. Venus nasceu nua, não sabe o belo que é ser despida ou despir-se. Por ser todo tempo e por todos admirada, não sentiu o peso de um olhar especial sobre si, a lhe atravessar o corpo e desvendar-lhe a alma, perscrutando íntimos segredos, e desconhecidas emoções. Tão humanas emoções. Ela nunca baixou os olhos por não suportar um olhar lhe adivinhando o que se passava em seu coração.

Da sua concha, surgiu deusa, nunca foi grão de areia a ferir o sensível molusco, não passou pelas fases tantas até se tornar perola. De tão universal, Venus nunca soube o que é ser única. Da espuma, do sal, do mar, surgiu num ímpeto, num átimo. Não soube o que é pacientemente abrir-se, despertar, desabrochar, não soube o que é ter alguém a espera para vê-la sair da concha.

Ainda bem que tamanha perfeição e completude cabe apenas às deusas, nós mulheres mortais, fomos meninas, concha, perola, espuma e sal, iguais a nós, tantas outras, no entanto, para alguém, em algum momento, seremos especiais.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Fuga para a chuva


A menina caiçara, que ainda vive em mim, às vezes foge do porão e vai fazer traquinagem. Solta das amarras, convenções, podes não podes, ela sai assim, de chinela e saia de chita, de cabelo assanhado, boca cheia de um sorriso tão genuíno, que por não caber por dentro, se derrama pelo caminho.

Ela, menina há muito tempo aprisionada, calçada, vestida, envernizada. Ela que hoje já não para ver o sol, que já não se demora em brinquedos de moleques a beira do rio. Já não salta mais cancelas, não se mete mais com meninos ciganos a jogar dados viciados e perder bolas de gude de estimação. Ela que há muito, já não chora de medo de causos de assombração.

A menina ribeirinha, que comia juá no pé, que jogava pião, roubava peixe na rede alheia e tomava banho de rio em dia de chuva (a água fica tão morninha), que tocava campanhia e corria, que vestia roupa do irmão pra melhor aprontar das suas sem estragar o vestidinho de menina (este ficava muito bem guardado em esconderijo secreto até a hora de voltar pra casa), que tantas vezes deixou a mãe alucinada, a imaginar seqüestros, roubo de órgãos, atropelamentos, afogamentos e tantas outras desventuras que só as mães conseguem arquitetar, a menina que apanhava de cinta para aprender ficar em casa, e que no dia seguinte, esquecidas a dor da surra e as lagrimas, ia-se de novo mundo afora, um mundinho bem pequeno, é verdade, tanto que seus pés ligeiros e suas pernas esguias davam conta de correr em um só dia.

Ah, essa menina, que nunca foi flor que se cheirasse...

Hoje vive no porão, um lugar úmido e escuro, com cheiro de guardado e saudade. Ainda que alimentada, com esforço resguardada, lhe falta um tantão assim de liberdade, de gosto de pé descalço no chão quente de cascalho, do cheiro de melancia na cheia do rio e da sensação de barro molhado nas mãos. Ainda que amarrada, pelas convenções, contida, de vez em quando ela apronta, ludibria e, sabe-se lá como, saí por aí assim, descalça, vestida de chita, solta de corda e canga e vai tomar banho de chuva.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Eu também sou Dona Flor



Pensei em intitular esse texto, “Toda mulher é Dona Flor”, mas como ainda não recebi procuração para falar em nome do gênero, decidi falar por mim, quem quiser, ou se identificar, se aproprie do conteúdo e, faça suas, minhas peripécias.

Pois bem, eu sou toda Dona Flor, essa mesma, a do amado Jorge, a que tinha dois maridos. Antes de julgá-la (e a mim também), vale a pena conhecê-la. Moça bonita, formosa, toda fornida de carnes, prendada até não mais. Flor, brejeira e romântica, casta e pudica a desabrochar em dengo e no gosto da vadiagem com o ardente Vadinho, seu marido primeiro, depois contida senhora, séria e honestíssima Floripes, a do doutor Teodoro, marido segundo. Entre um e outro, Flor escolhe os dois.

Sim, eu também sou dona Flor, quero o safado Vadinho para a cama e a vadiagem, quero que tire meu chão, me faça sentir mulher, me olhe com desejo e me encha de tesão. Quero a mão safada, a frase sacana dita ao pé do ouvido durante a ceia de Natal em casa daquela tia velha, quero o amasso no cinema, o beijo exagerado roubado no portão de casa, o convite inusitado e fora de hora (se é que existe hora) para a cama ou qualquer outro lugar, desde que seja com péssimas intenções, quero o cara machão, que briga e sai batendo a porta me deixando a falar sozinha, que volta trazendo flores, desfaz minha cara amarrada e me deixa ficar por cima. Quero o Vadinho sem freio, que me faça ter ciúmes e diga ao meu ouvido: “deixa de besteiras, mulher mesmo, pra valer, só tu mesmo, Flor minha”.

Mas quero também Teodoro, que me faça musicas e poemas, que me fale de estrelas e constelações, que me chame “meu amor”, mande flores, puxe cadeiras e abras portas. Quero o companheiro atento, fiel e dedicado, que me cuide quando doente, que ria de minhas piadas e me pergunte sobre meu dia, quero que me elogie e me encante, seja zeloso, protetor e ande comigo de mãos dadas. Que me faça um amor tranqüilo, que me cubra de beijos mornos e me chame de todos os diminutivos do mundo. Quero Teodoro que sempre volte pra casa e, em dias de chuva, me deixe dormir recostada em seu peito. Quero o romance cotidiano e a sensação de proteção.

Agora o que quero mesmo, é tudo isso num combo. Quero que os homens acordem, aprendam a olhar mais de perto. Que asim como eu, e tantas outras mulheres, somos todas dona Flor, sejam também os homens, Teodoro e Vadinho em um só. Fariam tão mais felizes, esposas, namoradas, ficantes, casos, peguetes ou qualquer outro desdobramento.

Ah! Se vocês, homens, entendessem isso, essa coisinha tão simples, essa dualidade das fêmeas, esse ambíguo desejo. Ah se vocês entendessem...

Quantos chifres seriam evitados...