segunda-feira, 15 de julho de 2013

Amor Perfeito


Eu quero um amor pra vida inteira que dure enquanto for bom, que goste de dormir de conchinha, mas que no dia seguinte pegue suas coisas e vá pra sua casa, sem neuras. Que entenda minha necessidade de, as vezes (ou muitas vezes) querer ficar sozinha, assim, sem nenhum motivo mesmo, que não queira DRs nem explicações toda vez que isso ocorrer. Quero um amor que entenda que tenho gavetas dentro de mim que não gosto que ninguém mexa, remexa, futuque, que tem coisas sobre as quais não gosto de falar e outras sobre as quais não vou falar nunca, que se conforme que tenho segredos, que não sou um livro aberto e que existem coisas sobre mim que ninguém, nem mesmo ele, vai saber.
Quero um amor que entenda que sou meio felina, as vezes me achego, arranhando de mansinho, querendo dengo, mas que também sumo dentro de mim e levo um tempo para voltar, que não me cobre explicações cada vez que meu humor mude ou que eu transite entre a euforia e o mais sepulcral silencio, que entenda que meus problemas nem sempre tem a ver com a ele, quero um amor que não peça definições de sentimentos que nem eu sei.
Quero um amor pra discutir sobre arte, cinema, literatura, para segurar a barra e amarrar as pontas, que saiba me ouvir falar e, sobretudo que saiba me ouvir calar, que perceba que odeio pedir e que sim, às vezes quero que me adivinhe, me surpreenda, se antecipe àqueles pequeninos atos que fazem a maior diferença.

Quero um amor que entenda que não preciso de gaiolas, que quando resolvo ficar, eu fico, e por vontade. Que saiba que quando amo é por inteiro e sem reservas, quero um amor que certamente vai permanecer no campo das inexistências.

domingo, 7 de julho de 2013

A eventual cegueira do amor.



A eventual cegueira do amor.


As vezes penso que essa coisa de “digo o penso”, “esse é meu jeito e não vou mudar”, seja apenas uma desculpa para poder magoar as pessoas. A verdade dói e nem sempre é a melhor solução, principalmente quando se trata de relacionamentos amorosos. Tá certo que a família do seu amor é um saco, seu cunhado é um pentelho e você não vai nem um pouco com a cara daquele melhor amigo, porém, antes de ter um ataque de sinceridade e sair dizendo exatamente tudo o que pensa a respeito destas pessoas é bom lembrar que foram elas quem amaram e apoiaram seu parceiro desde muito antes de você estar ali, foram eles quem seguraram as barras, deram apoio e força, compartilharam os piores e melhores momentos.
Amar implica, muitas vezes fechar os olhos para algumas coisas que nos incomodam mas que são essenciais na vida do outro, suportar situações para nós desagradáveis somente para poder desfrutar de mais um momento lado a lado, nesses casos vale disfarçar o desagrado ou omitir a opinião desfavorável, vale a pena esperar o momento certo para conversar a respeito sem agressões ou cobranças.
Recentemente ouvi que isso é agir com falsidade e hipocrisia, eu acho que é apenas vontade de preservar o outro ou o momento que se está vivendo, costumo dizer que de amigo, cabelo e parente só quem pode falar mal é a gente. Mesmo sabendo que uma pessoa não é a mais cheia de qualidades do mundo, ninguém gosta de ouvir comentários maldosos a respeito dela se a ama ou lhe tem amizade.
Claro que chega uma hora em que o sapo simplesmente não desce mais, esse é o momento para uma conversa civilizada, levando sempre em consideração que o amigo que você detesta pode ser a única pessoa a quem seu amor pode recorrer sem pestanejar, que aquelas festas de família que você acha tediosas marcaram a infância dele, que cada um tem seu jeito e suas peculiaridades, que a grama do vizinho nem sempre é mais verde e que sinceridade demais mais atrapalha que ajuda.


Às vezes, para ser feliz é preciso agir como aqueles bonequinhos celebres, que não falam, não ouvem nem enxergam. Amar é, de vez em quando fechar os olhos e engolir em seco. 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Destinos


A mulher estava ali fazia certo tempo. Sentada, imóvel, introspecta, mergulhada em seus pensamentos, sabe-se lá Deus (ou o diabo, que é quem mais entende de pensamento de mulher) quais.

Todos os passantes espichavam o olhar para aquela figura no mínimo, exótica, ali parada, como se fosse uma palmeira imperial. Digo palmeira, pois era bem o que ela me lembrava. Nunca tinha visto uma mulher tão bonita, tão altiva. Perturbadoramente bonita e quieta. Olhava para tudo, mas era como se não olhasse pra nada, era um olhar penetrante e impenetrável.

Depois de horas de angustiante quietude resolvo me aproximar, talvez ela não falasse português ou nenhum outro idioma, afinal, não é de estranhar? Uma mulher calada por tanto tempo?

Meio cabreiro me aproximo:

- Posso ajudá-la, senhora?

- Senhorita.

- Como queira.

De repente ela me olha com a expressão mais esquisita que já vi na vida, a mulher parecia querer me atravessar e ler meus pensamentos.

- O senhor acredita em destino?

- Como?

- Essa coisa de predestinação, nada é por acaso, tudo está escrito, enfim.

- Que diacho de pergunta mais estranha, aliás, toda essa historia é estranha. Primeiro a senhora, digo, senhorita, fica aí parada, caladona, com cara daquele bicho do Egito que devorava os viajantes...

- Esfinge.

- O quê?

- Esfinge, é o nome do ser que devorava os viajantes que não decifrassem seus enigmas.

- Ah! Então, primeiro a senhorita fica aí com cara de quem vai devorar o primeiro que atravesse seu caminho, depois me vem com uma pergunta estranha dessa, assim à queima roupa.

- Mas o senhor nunca se preocupou em saber se a gente já nasce com um destino todo prontinho, só esperando pela gente pra poder acontecer?

- Eu acho muito besta isso de gente vir ao mundo com o destino escrito na testa.

- Nas mãos.

- Como?

- Nas mãos, o destino da pessoa está escrito nas mãos.

- Vixe, agora que complicou. Então quem nasce sem as mãos, nasce também sem destino? Era melhor que fosse na testa, pelo menos nunca vi ninguém sem testa, já sem mãos...

- Engraçado, nunca tinha pensado nisso. Mas o senhor não acha curioso o fato de eu estar aqui há tanto tempo e só o senhor ter vindo falar comigo?

- Peraê, eu vim porque quis.

- Mas o que fez o senhor querer?

Pensei em lhe dizer a verdade, que foi aquele porte de palmeira, o corpo de parar de comboio de caminhão, os seios, as coxas, mas nessas horas é melhor demonstrar cavalheirismo.

- Eu pensei que estivesse perdida, sei lá, ficou aí à toa.

- Nada disso, foi coisa do destino, o senhor não vê?

Desisti de argumentar e confesso que já estava meio mexido com aquele papo.

A moça respirou fundo e continuou:

- Olhe, hoje aconteceu algo muito incomum, eu me atrasei e perdi o ônibus que tomo todos os dias, então resolvi tomar um outro que me deixaria perto do trabalho, me confundi, perdi o ponto e acabei vindo parar aqui.

- Pois bem, até aí nada de estranho. Quem nunca tomou o ônibus errado? Era só voltar e continuar seu caminho.

- Pois é, seria o óbvio, mas então eu me perguntei como seria se eu não chegasse ao trabalho hoje, na mesma hora de todos os dias depois de dez anos.

- Minha senhora, perdão, senhorita, no mínimo a senhorita receberá um baita esculacho do seu patrão.

- O senhor não está entendendo, tudo isso me fez pensar que o destino, o meu destino, ia dar uma reviravolta. Não vê? Não estamos aqui, nesse momento, conversando por acaso. O senhor estava no meu destino e eu no seu.

Confesso que me senti bem lisonjeado, afinal nunca havia estado no destino de uma mulher daquelas.

- Agora já sei o que me estava reservado pelo destino, pelo menos para hoje. Bem aí vem outro ônibus.

- Espera, então é assim? Eu entro no seu destino por uma porta e a senhorita sai por outra? Ou melhor, entra pela porta de um ônibus?

- Então, assim é o destino. Ele já vem pronto, mas a gente nunca sabe o que vai acontecer. O que a gente chama de vida é apenas o desenrolar do destino, a sucessão de seus acontecimentos.

- Se é assim, fica sendo. Quem sou eu pra contrariar né? Em todo caso, foi um prazer senhorita...

- Rafaela.

- Paulo, no seu destino e ao seu dispor.

Aqueles acontecimentos ficaram a martelar em minha cabeça, mas logo depois a mesa de bilhar roubou minha concentração e foi ali que me abordou esbaforido o moleque que entrega jornais com uma noticia ainda mais quente que as dos periódicos matutinos. Logo ali, na rua de baixo, um ônibus despencou da ladeira, bateu, capotou , levou tudo que encontrou pela frente, um miserê. Porém, o mais impressionante é que só houve uma vitima fatal, uma mulher, identificada como Rafaela da Silva.

Fiquei atônito, coitada, uma mulher tão bonita. Mas que destino!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Mais ou menos uma fábula



Assim não é possível, todo dia isso. Será que ele não toma jeito? Resmungava Leon a caminho da casa de Rafael. Olhava para o relógio ansioso e aumentava o passo, odiava chegar atrasado, era pontual como um relógio suíço. Já o Rafael, seu melhor amigo, era totalmente o oposto. O que tinha Leon de responsável, preocupado em cumprir todas as obrigações e ser politicamente correto, tinha Rafael de descontraído, relaxado e bom vivant.

Leon para em frente a casinha amarela de portas e janelas vermelhas e bate uma, duas, três vezes. Nada. Põe se a esmurrar a porta com mais vigor:

- Rafaeeeeeeeeeeeeel, Rafaeeeeeeeeeeeeeeeel.

Ouve passos lentos, parece ouvir os bocejos do amigo, vindo com toda aquela paciência do mundo. A porta se abre e Rafael aparece esfregando os olhos e ainda enfiando umas coisas na mochila.

- O Que foi Leon? A floresta está pegando fogo?

- O que foi? Você me pergunta o que foi? Já estamos completamente atrasados e você ainda nem acordou direito! Aposto como ficou a noite inteira tocando esse bendito violão não foi?

- Taí, já pensou em abrir um negócio de clarividência? Adivinhou!

- Vê se para de palhaçada e vamos embora.

Finalmente Leon conseguiu arrastar Rafael para fora de casa, desde o primário era aquela mesma historia, o Leon todos os dias, precisava passar na casa do amigo para chamá-lo para aula. Talvez fosse a hora de levarem um papo sério, afinal já não eram mais crianças. Rafael ia chutando pedrinhas distraidamente enquanto Leon olhava para os sapatos, sem saber como puxar aquele assunto. Rafael resolve começar uma conversa:

- Que foi Leo? Está mais carrancudo que sempre.

-Sabe, acho que a gente precisa levar um papo...

- Ihhh! Já vi que lá vem papo cabeça.

- É sobre isso que quero falar, cara, você não leva nada a sério, não se importa com nada, parece que vive no mundo da lua, não ta nem aí para a escola. Todo ano faz um monte de recuperações e nem sei como consegue passar de ano. Já está na hora de você começar pensar no futuro, sobre qual faculdade vai fazer. Você fica aí ligado nessa historia de arte, de música, isso não dá futuro cara.

Rafael ouvia meio que distraído, não era a primeira vez que ouvia aquele discurso, todos os professores já haviam lhe dito aquilo desde a primeira série.

- Sabe Leon, vocês formigas são muito estressadas. Saca só isso.

Leon tirou o violão da mochila e começou cantarolar:

Don’t worry, about a thing, cause every litlle things, gonna be all right.

- E vocês, cigarras, não levam nada a sério. Bom, pelo menos inglês você está estudando.

Os dois não puderam evitar a gargalhada. Nunca houve entre duas pessoas tantas diferenças e uma amizade tão sincera.

Assim passou o tempo e os dois seguiam com seus projetos. Leon ansioso, preocupado com o futuro, os estudos, a desejada carreira de advogado e Rafael, cada vez mais no mundo da lua, agarrado ao seu inseparável violão e sua vasta coleção musical.

Chegou o ultimo ano do ensino médio, toda a escola estava em alvoroço, alunos preocupados com as provas finais, a formatura, o vestibular. Todos, exceto um, Rafael, que só se preocupava em dar os últimos toques na banda para a apresentação da formatura.

Ao contrario do amigo, Leon estava em vias de enlouquecer, estudava oito horas por dias e ia prestar vestibular em três faculdades. Vivia zanzando para lá e para cá com pilhas de livros e nunca tinha tempo pra nada. Até as conversas com Rafael tornaram-se mais espaçadas. Mas os amigos se compreendiam, um entendia e respeitava os desejos do outro e, mesmo sendo tão contrários, apoiavam-se sem reservas.

Leon, como já era esperado, foi aprovado na melhor faculdade de direito da região. Ninguém duvidava que ele seria o melhor. A família, orgulhosíssima, fez questão de preparar uma baita festa para todos os seus amigos, nunca se viu uma despedida tão animada. Várias mães entusiasmadas comentavam o bom desempenho de seus filhos e faziam as previsões mais mirabolantes, que só as mães podem conceber para o futuro de um filho.

Lá pelas tantas, atrasado como sempre, chega Rafael com seu surrado violão embaixo do braço. A mãe de Leon torce o nariz, nuca foi com a cara daquele menino aluado e cava graças aos céus por ele não ter corrompido seu promissor filhinho.

Rafael canta uma musica que compôs para o amigo. Se despedem com a certeza de que não voltariam a se ver tão cedo e que, talvez nunca mais seriam tão próximos.

Os anos se passaram, a comunicação entre os amigos foi diminuindo até quase deixar de existir. Leon estava cada dia mais ocupado, trabalhando e estudando mais e mais. Quase não lhe sobrava tempo de enviar um simples e mail. A vida na cidade grande, os compromisso de trabalho lhe consumiam todo o tempo mas, ele estava feliz, afinal este é o destino de todas as formigas.

Certo dia, após chegar de mais uma exaustiva jornada de trabalho, Leon se levanta contrariado para atender ao interfone. A voz do porteiro soa estridente ao seu ouvido:

- Doutor, tem uma pessoa aqui que diz ser seu amigo, sei não, mas me parece difícil que isso seja verdade...

- Qual é o nome da pessoa?

- Ele diz que é Rafael.

- Rafael? Pode mandar subir.

- Tem certeza? É que ele me parece meio, meio...

- Meio vagabundo?

- Sim senhor.

Leon sorriu ao lembrar do jeito despojado, meio hippie do amigo, pelo jeito ele não havia mudado nada, muito menos tomado um rumo na vida.

- Pode mandar subir.

Os amigos se abraçaram com entusiasmo, mesmo estando Rafael encharcado pela chuva que desabava lá fora.

Leon olhou para a pouca bagagem e o velho violão do amigo encostado na parede.

- Está de passagem, ou pretende ficar?

- Nada, volto amanhã, desculpe vir sem avisar, eu não gosto de hotéis.

- Pode ficar o tempo que precisar, só não garanto te fazer companhia, tenho trabalhado muito.

- Percebe-se, baita casarão heim mano? Tem placas para eu não me perder?

Caíram na gargalhada, como nos velhos tempos.

- Você não muda Rafa, sempre palhaço.

- Mas todos se divertiam com minhas palhaçadas não era?

- Cara, até hoje lembro daquele dia que você colocou uma perereca na bolsa da professora.

- É, eu fui expulso por uma semana...

- Mas valeu por cada risada.

- Bom, se você não se importa, preciso de uma roupa seca, não posso pegar um resfriado e destruir minha bela voz.

Leon indicou o caminho e foi ver o que tinha pra comer, raramente fazia uma refeição em casa, ganhava tempo comendo no trabalho. Enquanto improvisava um jantar, não pôde deixar de se preocupar com o amigo, pela sua aparência, ele continuava da mesma maneira, levando a mesma vida de anos atrás, pensou se não seria a hora de terem uma nova conversa. Respeitava a postura do amigo, mas temia pelo seu futuro, Rafa não era mais um garoto, agora era um homem feito.

Durante o jantar quase não falaram, Rafael como sempre, puxou conversa:

- Puxa Leo, será que você não perde essa cara emburrada?

- É que eu queria te falar umas coisas.

- Papo cabeça, adivinhei?

- Rafa, é sério. Olha pra você cara, não mudou nada.

- Ué, você também não mudou nada e eu não estou preocupado por isso.

- É diferente cara. Você precisa se preocupar com seu futuro, não é mais nenhum garoto.

Rafael apenas balançou a cabeça distraidamente, como fizera todas as vezes que o amigo tentou aquela conversa.

- Bom, o que você veio fazer por aqui, garanto que não foi provar minha comida.

- Que é muito ruim por sinal.

- Isso eu admito que você sempre fez bem Rafa, um cozinheiro de mão cheia. Tai, deveria abrir um restaurante.

- Eu heim! Respondendo a sua pergunta, eu tive que vir aqui ver um lance muito sério, é que uma gravadora me contratou meu amigo, acabo de assinar o contrato. Eles querem gravar todas as minhas composições, isso deve resolver suas preocupações a respeito do meu futuro, tenho emprego por pelo menos cinco anos e acabo de receber uma bolada pela assinatura do contrato.

- Nossa cara, que noticia fantástica. Quem diria que esse violão velho ia ser sua mina de ouro heim!

- Pois é, agora vou voltar pra casa e abrir uma escola de artes. Existem coisas que não se aprendem apenas em uma faculdade e todos os caminhos podem levar ao sucesso, desde que se faça o que gosta e que se proponha a fazer com vontade.

- Confesso que estou impressionado. Só me resta parabenizá-lo e dizer que me sinto aliviado, já estava convicto de que ia ter que te sustentar e, você em troca, todos os dias me pagaria com uma musica.

- Agora você é quem vai pagar para ouvir minhas músicas. Por falar em musica, que tal relembrarmos os velhos tempos?

Rafael levantou-se, apanhou seu surrado violão e começou cantar baixinho:

Don’t worry, about a thing, cause every little things, gona be all right…

Passaram o resto da noite relembrando os feitos da infância e da adolescência, felizes por sempre terem tido certeza dos seus objetivos e por tê-los alcançado. Naquela noite Leon não se preocupou em dormir cedo e Rafael no outro dia, foi quem precisou acordá-lo para ir trabalhar.





segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Entre Tecidos


As fibras de teu corpo entretecidas em mim criam uma trama que me desnuda, ao invés de me cobrir. Sou colcha de teus retalhos, deixei que imprimisses em mim tuas cores e formas para te ter comigo, não importa onde eu esteja nem onde fores. Me deixei ficar ao teu lado, que caminhássemos lado a lado. Deixei que teus dedos fossem pincéis a desenhar girassóis sobre meu torso nu, que os teus olhos me banhassem e tuas palavras me cobrissem. Deixei que teu olhar se demorasse, se derramassem em aquarelas. Me deixei inteira ser tua tela.
Deixei que teu beijos minúsculos decalcassem em meu corpo sonetos, verso a verso, que tirasses de meus lábios musica e melodia, me deixei totalmente ser tua poesia.
Deixo que teu silêncio me complete, que tuas lembranças me lavem os olhos, que seja balsamo e maresia. Deixo seguir esse ser não sendo, esse mais bem realizado não acontecido, me deixo ser sua, mesmo sem ter sido.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Filhos terceirizados



A vida moderna está cada vez mais exigente. É preciso ir para a faculdade, fazer pós graduação, cursos e, para manter esse padrão moderno de vida, é preciso trabalhar. Nunca se trabalhou tanto. O mercado é competitivo, a concorrência é desleal e só há lugar ao sol para os melhores, leia-se aqui, para aqueles que trabalham de dez a doze horas por dia, no mínimo, desconhecem feriados, dias santos e finais de semana. É preciso ser o melhor para ter o melhor, melhor esse que, na maioria dos casos, nem chega a ser desfrutado, pois o tempo curto não permite tais futilidades.
As agendas estão cada vez mais apertadas, homens e mulheres de negócio, super profissionais do século XXI, brigam cotidianamente contra o tempo. Em virtude disso, muitas atribuições, que antes eram pessoais, acabam sendo delegadas a terceiros. Existem hoje, profissionais especializados para escolher desde a roupa que a pessoa vai usar, que moveis comprar, até o que comer. Preocupar-se com esses detalhes tornou-se perda de tempo. Atualmente, terceiriza-se tudo, inclusive a educação dos filhos.
Daqui a algum tempo, teremos a geração babá, dos filhos que foram criados com pouco ou nenhum contato com os pais. Basta observar a franca expansão das escolas em tempo integral, dos cursos de idiomas, esportes, artes, voltada para um publico alvo de crianças e adolescentes. Pais sem tempo para serem pais, cuidam de preencher também a agenda dos filhos. O que me preocupa é que tipo de formação moral essa geração está tendo, qual conceito de família estão desenvolvendo, quais os valores que estão adquirindo. Será que essa educação terceirizada pode substituir as relações familiares? Aquelas, tão em voga no século passado e que hoje mais parecem tema de historias da Carochinha.
Outro dia, em meio a uma conversa com um aluno um tanto indisciplinado, disse-lhe que se continuasse com aquele mau comportamento eu seria obrigada a conversar com seus pais, ele olhando para o nada, me desejou boa sorte e disse que está tentando fazer isso há anos.
A maioria dos pais já não comparece às reuniões escolares, é notável o aglomerado de vans na porta das escolas, pois os pais já não dispõem de tempo para levar e buscar os filhos à escola. Pais e filhos estão cada vez mais distantes, estranhos ligados por um laço de sangue e nada mais.
Uma vez, ouvi em uma palestra ministrada por uma psicopedagoga a historia “do nó na ponta do lençol”. Um certo pai, que trabalhava muito, não tinha tempo para ver os filhos pois saía muito cedo para trabalhar e só voltava tarde da noite. Ele sempre beijava os filhos ao sair e ao chegar, para que soubessem que ele estivera ali, todos os dias dava um nó na ponta do lençol de cada um dos filhos. Era a sua maneira de se fazer presente. Ao final da historia, todos aplaudiram, emocionadíssimos.
Me desculpem os partidários dessa pratica, mas nó na ponta do lençol não educa, não forma cidadãos, não transmite valores, não substitui a presença materna e paterna. O nó no lençol não serve como modelo, como exemplo a ser seguido, dificilmente será a partir dele que uma criança decidirá ser “igual aos pais quando crescer”.
Talvez essa transferência da responsabilidade de educar os filhos a terceiros seja uma das prováveis causas dessa geração tão perdida, vazia, carente, irresponsável e imatura. Está faltando a base, os pilares da formação de qualquer individuo, a família, essa instituição cada vez mais fragilizada, da qual já sentimos uma falta absurda.
Em minha opinião, quem tem tempo apenas para dar um nó na ponta do lençol, deveria repensar a idéia de ter filhos pois, mais pra frente, os estragos serão bem mais difíceis de consertar e um nó na ponta do lençol pode não bastar para solucioná-los.





quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O futuro da Nação


A cada dia, me torno mais cética em relação a um futuro promissor para a sociedade. Confesso que fico insegura e amedrontada, quase em pânico mesmo, quando imagino que essa geração “junk food”, é o futuro da minha Nação.
Como educadora, sofro em dobro diante da falta de perspectivas, de senso de responsabilidade, criticidade e maturidade da maioria dos jovens e adolescentes. Uma geração imediatista, muitas vezes fútil, em que a palavra futuro, significa, no máximo, a festinha que vai rolar em alguns dias. Sinto falta do tempo em que, quando questionadas sobre o que queriam ser quando crescessem, as crianças tinham, na ponta da língua, uma resposta rápida, embora nem sempre certeira, e isso nem foi há tanto tempo assim. Hoje, a maioria dos jovens “ainda não pensou sobre isso” ou simplesmente “não sabem”.
O futuro da Nação, ao que tudo indica, será uma geração forjada no esquema “pagou passou” de muitas instituições educacionais, a geração educada pelas babás, dos pais que trabalham doze horas por dia e encarregam terceiros da educação dos filhos, dos pais que acham que dar uma boa educação é pagar uma escola cara e que compensam as horas de ausência com cartões de credito. O futuro da Nação é uma geração de alunos problema, filhos problema, cidadãos problema.
Lembro que há algum tempo, em uma sala de aula, o aluno problemático, que provocava brigas e não fazia lições era uma exceção, aquele caso raro, um por sala de aula. Hoje, exceção é aquele que se dedica, tem sonhos, planos e pensa no futuro. O caso raro, raríssimo, por sinal, é um adolescente com um nível de conhecimento que vá além da biografia de algum astro pop, cujo motivo para viver não seja ostentar roupas de grife, desfilar no shopping, beber até cair ou, por modismo, praticar atos ilícitos em companhia de uma turba de igual filosofia de vida.
É essa geração, cuja aprovação escolar é mediada e garantida pelo poder aquisitivo dos pais, sem nenhum ou pouco preparo emocional, psíquico e intelectual, que pelos mesmos caminhos escusos que passaram pelo ensino fundamental e médio, adentrarão as faculdades da vida, obterão seus diplomas e, muito em breve, estarão clinicando, advogando e lecionando. Essa geração ocupará os cargos políticos (com ainda mais representatividade), essa geração continuará tecendo outras gerações.
A menos que surjam novos mártires, que haja uma retomada nos padrões éticos e morais, sobretudo nas instituições educacionais, a menos que haja um milagre, eis minha visão, que muitos teimam em chamar e de pessimista, mas a mim, apenas realista, do futuro da Nação.