domingo, 11 de julho de 2010

Versos para Raphael

Versos para Raphael




Era pra ser uma dedicatória

Acabou virando poema

Fazer o que?

Sou boa de história

E ninguém manda na pena.*

Minha pena tem vida própria

Escorrega, desliza, caminha

Ela que leva minha mão

Ela caminha sozinha

Escreve a imaginação

E cria um mundo só para ti.

Lá você é quem quiser

E a todo lugar podes ir

Podes ser príncipe valente

Podes ser rio corrente

Viver em castelos de areia

Ser encantador de sereias.

Ser pirata, capitão

Voar sem tirar o pé do chão.

Podes inventar uma língua só tua

Podes ser rei da terra e da lua

Podes ser destemido cowboy

Super-poderoso-herói.

Num estalar de dedos

Um novo universo criar

E se ficar entediado

Podes tudo desmanchar.

Podes conhecer o mundo

Este e quantos desejar

E quando, e se quiser

Podes simplesmente voltar.

Eis meu presente pra ti

Tinta, papel e pena

Sonhos, carinhos,

Poema!

Você mesmo um perfeito poema

Divinamente rimado

Pela mão do Mestre criado.

De tudo que eu possa te dar

Eis meu melhor pra você

As coisas que mais gosto no mundo:

Rimar e amar você.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Crônicas tiradas da aula


I
Aluno 1: A pró é Viviane que nem a mulher da novela...
Aluno 2: Eita, que diferença! a pró é..., pró, como é que se diz que a pessoa é preta sem ser xingando?


II

Aluno 1: Pró, sinonimo é quando uma palavra quer dizer a mesma coisa que a outra né?
Professora: Isso mesmo, palavras com mesmo valor semântico.
Aluno 1: porra, a pró falou bonito agora.
Aluno 2: claro né, cavalo! a pró é professora!

domingo, 4 de julho de 2010

cotidiano


_ Boa noite, querido.

_Boa noite, te amo.

_Te amo também..., desliga?

_Ah! não, desliga você.

_Mas eu desliguei ontem.

_E eu nas dez vezes anteriores.

_Poxa, desliga vai.

_Já falei que não quero.

_O que é que custa?

_Porra, você é chata viu. Não desligo e acabou!

_Você é que é um grosso!

_Claro, você acaba a paciência de qualquer um.

_Tá bom, não quer desligar não desliga.

_ (...)

_ Depois não reclama da conta de energia.

_Diabo de mania sua, de esquecer essa lâmpada ligada...

sábado, 3 de julho de 2010

A Venus e as mulheres




Venus nunca foi menina, já nasceu mulher, portanto não conhece a beleza de descobri-se nem de ser descoberta. Ela nasceu perfeita, divina perfeição, o que nunca lhe permitiu o jubilo de aperfeiçoar-se. A mais linda e sensual de todas as deusas e mortais. Venus nunca soube o que é ser bonita somente para alguém em especial.

Venus nasceu pronta, lapidada, não soube o que é ser moldada por mãos habilidosas, nunca soube o que é ser conduzida nem teve despertos seus sentimentos em fúria e fogo, nunca teve rubor nas faces nem sentiu as pernas tremulas. Venus nasceu nua, não sabe o belo que é ser despida ou despir-se. Por ser todo tempo e por todos admirada, não sentiu o peso de um olhar especial sobre si, a lhe atravessar o corpo e desvendar-lhe a alma, perscrutando íntimos segredos, e desconhecidas emoções. Tão humanas emoções. Ela nunca baixou os olhos por não suportar um olhar lhe adivinhando o que se passava em seu coração.

Da sua concha, surgiu deusa, nunca foi grão de areia a ferir o sensível molusco, não passou pelas fases tantas até se tornar perola. De tão universal, Venus nunca soube o que é ser única. Da espuma, do sal, do mar, surgiu num ímpeto, num átimo. Não soube o que é pacientemente abrir-se, despertar, desabrochar, não soube o que é ter alguém a espera para vê-la sair da concha.

Ainda bem que tamanha perfeição e completude cabe apenas às deusas, nós mulheres mortais, fomos meninas, concha, perola, espuma e sal, iguais a nós, tantas outras, no entanto, para alguém, em algum momento, seremos especiais.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Fuga para a chuva


A menina caiçara, que ainda vive em mim, às vezes foge do porão e vai fazer traquinagem. Solta das amarras, convenções, podes não podes, ela sai assim, de chinela e saia de chita, de cabelo assanhado, boca cheia de um sorriso tão genuíno, que por não caber por dentro, se derrama pelo caminho.

Ela, menina há muito tempo aprisionada, calçada, vestida, envernizada. Ela que hoje já não para ver o sol, que já não se demora em brinquedos de moleques a beira do rio. Já não salta mais cancelas, não se mete mais com meninos ciganos a jogar dados viciados e perder bolas de gude de estimação. Ela que há muito, já não chora de medo de causos de assombração.

A menina ribeirinha, que comia juá no pé, que jogava pião, roubava peixe na rede alheia e tomava banho de rio em dia de chuva (a água fica tão morninha), que tocava campanhia e corria, que vestia roupa do irmão pra melhor aprontar das suas sem estragar o vestidinho de menina (este ficava muito bem guardado em esconderijo secreto até a hora de voltar pra casa), que tantas vezes deixou a mãe alucinada, a imaginar seqüestros, roubo de órgãos, atropelamentos, afogamentos e tantas outras desventuras que só as mães conseguem arquitetar, a menina que apanhava de cinta para aprender ficar em casa, e que no dia seguinte, esquecidas a dor da surra e as lagrimas, ia-se de novo mundo afora, um mundinho bem pequeno, é verdade, tanto que seus pés ligeiros e suas pernas esguias davam conta de correr em um só dia.

Ah, essa menina, que nunca foi flor que se cheirasse...

Hoje vive no porão, um lugar úmido e escuro, com cheiro de guardado e saudade. Ainda que alimentada, com esforço resguardada, lhe falta um tantão assim de liberdade, de gosto de pé descalço no chão quente de cascalho, do cheiro de melancia na cheia do rio e da sensação de barro molhado nas mãos. Ainda que amarrada, pelas convenções, contida, de vez em quando ela apronta, ludibria e, sabe-se lá como, saí por aí assim, descalça, vestida de chita, solta de corda e canga e vai tomar banho de chuva.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Eu também sou Dona Flor



Pensei em intitular esse texto, “Toda mulher é Dona Flor”, mas como ainda não recebi procuração para falar em nome do gênero, decidi falar por mim, quem quiser, ou se identificar, se aproprie do conteúdo e, faça suas, minhas peripécias.

Pois bem, eu sou toda Dona Flor, essa mesma, a do amado Jorge, a que tinha dois maridos. Antes de julgá-la (e a mim também), vale a pena conhecê-la. Moça bonita, formosa, toda fornida de carnes, prendada até não mais. Flor, brejeira e romântica, casta e pudica a desabrochar em dengo e no gosto da vadiagem com o ardente Vadinho, seu marido primeiro, depois contida senhora, séria e honestíssima Floripes, a do doutor Teodoro, marido segundo. Entre um e outro, Flor escolhe os dois.

Sim, eu também sou dona Flor, quero o safado Vadinho para a cama e a vadiagem, quero que tire meu chão, me faça sentir mulher, me olhe com desejo e me encha de tesão. Quero a mão safada, a frase sacana dita ao pé do ouvido durante a ceia de Natal em casa daquela tia velha, quero o amasso no cinema, o beijo exagerado roubado no portão de casa, o convite inusitado e fora de hora (se é que existe hora) para a cama ou qualquer outro lugar, desde que seja com péssimas intenções, quero o cara machão, que briga e sai batendo a porta me deixando a falar sozinha, que volta trazendo flores, desfaz minha cara amarrada e me deixa ficar por cima. Quero o Vadinho sem freio, que me faça ter ciúmes e diga ao meu ouvido: “deixa de besteiras, mulher mesmo, pra valer, só tu mesmo, Flor minha”.

Mas quero também Teodoro, que me faça musicas e poemas, que me fale de estrelas e constelações, que me chame “meu amor”, mande flores, puxe cadeiras e abras portas. Quero o companheiro atento, fiel e dedicado, que me cuide quando doente, que ria de minhas piadas e me pergunte sobre meu dia, quero que me elogie e me encante, seja zeloso, protetor e ande comigo de mãos dadas. Que me faça um amor tranqüilo, que me cubra de beijos mornos e me chame de todos os diminutivos do mundo. Quero Teodoro que sempre volte pra casa e, em dias de chuva, me deixe dormir recostada em seu peito. Quero o romance cotidiano e a sensação de proteção.

Agora o que quero mesmo, é tudo isso num combo. Quero que os homens acordem, aprendam a olhar mais de perto. Que asim como eu, e tantas outras mulheres, somos todas dona Flor, sejam também os homens, Teodoro e Vadinho em um só. Fariam tão mais felizes, esposas, namoradas, ficantes, casos, peguetes ou qualquer outro desdobramento.

Ah! Se vocês, homens, entendessem isso, essa coisinha tão simples, essa dualidade das fêmeas, esse ambíguo desejo. Ah se vocês entendessem...

Quantos chifres seriam evitados...




Requiem


Um dia eu quis fazer algo diferente...
Me disseram que se o fizesse
Certamente iria me arrepender.
Não o fiz.
E como me arrependo...

Viviane do Carmo