sábado, 26 de junho de 2010

Amor ao HAI CAI

Hai cai - Forma de poema surgido no Japão no século XVI, composta de três versos. A palavra, de origem japonesa é formada de Hai = brincadeira e Kai = harmonia.









"Tarde de Verão"

Tarde de verão
O sol artista nato
Coloriu o chão...

                                                                                     
 Estela Bonini 
  

Tarde de Verão em Arles
Vincent Van Gogh, 1888


sexta-feira, 25 de junho de 2010

Da filosofia de botequim ao divã do MSN

Sei, de ouvir falar, que numa época aí, as pessoas se reuniam em botecos para encontrar o sentido na vida no fundo do copo, talvez rolasse até uma analise escatológica feita a partir da disposição das guimbas no cinzeiro (mas isso aí já é lenda, o povo exagera). Bom, o fato é que assim se evitavam as tragédias modernas como depressão e suicídio. Reza a lenda que a filosofia de botequim, como ficou conhecida a tal prática, versava sobre um tudo, dos males de amor às revoluções que mudaram o mundo. Ali qualquer individuo (inspirado pela musa Ethílicas) virava um grande pensador, com direito a discípulos e seguidores. Cismando cá comigo mesma, pensei: Taí uma solução porreta para os meus dilemas existenciais, mas como nunca fui de freqüentar botequins (minha mãe sempre me dizia que lá só se encontra o que Maria perdeu no beco) e minha índole duvidosa com fortes tendências antissociais não me permite as rodas de amigos, a idéia foi prontamente descartada.

Já estava me acostumando à idéia de levar para o tumulo todas as minhas inquietações e elucubrações (dedico ao amigo Roustaing esse verbete que ele tanto ama, embora ainda esteja aprendendo usá-lo) quando recordei que, graças à evolução tecnológica e cientifica, hoje pessoas como eu dispõem de milagres como o MSN. Funciona mais ou menos assim, você tem um grupo de amigos com os quais não precisa manter contato físico, em um espaço virtual, onde se é possível ficar invisível (para aqueles momentos quando dá uma vontade louca de sumir). Mas o melhor de tudo é que se um dos amigos estiver enchendo o saco, você pode simplesmente bloqueá-lo ou, na pior das hipóteses, excluí-lo, o que na vida real poderia te render uns bons anos de cadeia. 

Em um desses dias de divagações sobre quem sou, para onde vou e de onde vim, decidi ir a um lugar onde todas essas angustias podem ser compartilhadas e, até quem sabe? Respondidas: o bate papo UOL! Entrei no chat (que é mais ou menos como um boteco pra gente antissocial) de sempre (não esse suas mentes poluídas), Idade 40 a 50 anos. Explico, de cabeça oca basta a minha, gosto de conversar com pessoa que tenham algo a agregar, por isso o chat citado.
Lá a filosofia corre solta, divagações a cem por um e o mais importante, as sessões de psicanálise são gratuitas. Encontra-se de tudo um muito, pode-se contar as mazelas que ninguém vai te olhar torto, pode-se fazer confissões sem ter que pagar a penitencia, pode-se até tomar vinho chileno sem ter que saldar a conta. Foi lá que Willian me disse, Vivi deixe de tolice, seja um pouco irresponsável, largue mão de tanto livro e vá ver a vida lá fora, deixe de ter medo de arriscar, suba ao quinto andar, mesmo que de lá sofra uma queda e quebre os ossos da sua alma, mas quando estiver marcada, cicatrizada, vais lembrar o quanto foi bela a vista de lá de cima. Vá beber com seus amigos, ah, não bebe? vá virar noites discutindo literatura e chegue no trabalho bêbada de sono de vez em quando. Pare de teorizar, medir, avaliar, às vezes só é preciso fechar os olhos e saltar. Deixe de ser boba, menina, arriscando se pode ganhar.
Willian me fez lembrar que a vida é feita de capítulos que se precedem e sucedem, capítulos findáveis e recomeçáveis e que nada é durável, nada é eterno, nós não somos eternos. Que não sou estranha nem esquisita (há controvérsias ainda) sou irritantemente diferente. No divã do MSN, o “conte-me mais sobre isso” é dinâmico, sem a prancheta de anotações (onde eu suspeito fortemente que os “psis” fazem suas listas de compras) dos sérios e ensimesmados pupilos de Freud. Em meio à terapia do riso e de fazer poesia, saber quem sou ou como surgiu o universo tornou-se uma preocupação para um outro dia qualquer. O bom da vida é rir, divagar e, sim amigo Roustaing, elucubrar. 
Viva a filosofia de botequim, o divã do MSN e as vãs elucubrações.

Agridoce

Não faço pose
Não peço close
Sempre implico
Sempre faço bico
Não digo que quero
Se não tiver querendo
E quando quero
Não desisto
Nem morrendo.
Sou feita de mel
E de puro veneno.
Me desfaço em mil
Gosto de provocar calafrio
Sou birrenta e abusada
Incompreensivelmente amada.
Vilã mal humorada
Anti heroína declarada
Assim de cara lavada
Todos sabendo
O que levam pra casa.
Anti ética
Politicamente incorreta
Por dizer o que penso,
Mal educada.
Prefiro morrer
Que viver calada.
Extremista, radical
Em cima do muro?
Nem a pau!
Amo com todas as forças,

Sempre vou ao fundo,
Sempre vou até o final.
Sempre dou tudo de mim
E não aceito que,

de outro jeito
Sejam comigo
Senão assim.
Amiga dos meus amigos
Os poucos que me agüentam
E por esses enfrento tudo
Fogo, água e tormenta.
Família pra mim
Não é sangue
Nem laços de tradição
Família são todos aqueles
Que cabem no coração.
Catastrófica e bipolar
Estou aqui e acolá
Revezando entre a solidão
E o desejo de multidão.
Quero ler
Todos os livros do mundo
Quero viver cada segundo
Quero amar com intensidade
Quero rio e liberdade.
Quero Ser, quando crescer.
Quero Ser
Mas só quando,
E se,
Eu crescer.

Viviane do Carmo

Os homens e os elogios

Semana passada fui apresentada a um amigo de uma amiga. Simpático, falastrão, simpatizei logo de cara. Enquanto aguardávamos na quilométrica fila do bandejão (apelido carinhoso do nosso Restaurante Universitário), começamos um papo descontraído, que não se sabe bem em que ponto, acabou virando um papo cabeça. Versamos do governo Wagner à preferência nacional masculina, da personalidade indecifrável de Michael Jackson ao momento de tensão entre os países sul americanos. Falamos de literatura portuguesa (ele acha que Junqueiro Freire é o cara, eu prefiro Antero de Quental) e chegamos a um acordo sobre o que seria uma mulher ideal- uma que goste e entenda de futebol, saiba cozinhar, adore sexo e não se importe com bagunça.
Ao final da (parca) refeição, enquanto nos despedíamos, ele apertando minha mão, dispara a queima roupa direto no meu coração: Nossa, foi muito bom te conhecer – abro meu melhor sorriso – você é muito bonita! Recolho o sorriso e a mão, ele me olha intrigado, pergunta inocentemente o que foi?
Poxa, o que foi? Depois de uma verdadeira maratona de cultura geral, piadas engraçadas, bom humor e simpatia, a única coisa que lhe parece relevante no final de tudo é o fato de eu ser bonita?
Ele ainda mais intrigado: Pensei que as mulheres gostassem de elogios.
Sim garotos, gostamos de elogios! Porem, elogiar uma mulher não significa apenas dizer que ela é bonita, isso uma poça de água na sarjeta pode dizer. Nossos atributos vão além do físico, do visível e material. Garotas também são inteligentes, bem humoradas, simpáticas e cultas. Garotas também têm senso de humor, sabem contar piadas, são articuladas, comunicativas e acima de tudo, se olhar bem, vai perceber que são portadoras de uma coisinha tão relegada por vocês a segundo plano, chamada personalidade. Então, que tal começar elogiar essas coisas também? 
Depois desse discurso progressivo feminista, ele agora além de intrigado, boquiaberto e com cara de paisagem: nossa não é que você tem razão? Nunca tinha pensado por esse lado - respiro aliviada- mas que você é linda é!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Ainda bem que existem voces.

Gente, hoje fui obrigada a presenciar um espetáculo bizarro que me fez refletir sobre costumes antes quase que inatos e hoje me parecem totalmente obseletos. estava em um restaurante e não mais que de repente uma criança começa berrar a plenos pulmões que queria alguma coisa(em meio ao ataque histérico não consegui entender o que ele berrava "eu quero..."), a criança jogou-se no chão, esperneou, atacou a tapas sua genitora(perdão, mas a uma criatura que permite esse comportamento do pirralho não se pode chamar de mãe, em respeito àquelas que verdadeiramente são.)que simplesmente assistia muda e inerte a toda cena, quando abriu aboca foi pra murmurar bem baixinho, acredito que com medo que o filho se partisse a um som mais agudo, - "filhinho, que coisa feia. olha tá todo mundo olhando pra vc, vamos vem comer sua batata frita". pensam que o moleque parou o berreiro? interrompeu apenas a sessão de esperneio. mas o pior ainda vem, restaurante lotado e eu sozinha em uma mesa, adivinhem onde eles se sentaram? pois é isso mesmo. o guri voltou a ter ataques convulsivos, chutou a mesa, quase que derramou meu refri, jogou pra fora do prato o que não queria comer e eu juro que quase peguei meu prato e fui comer em pé num canto do salão. nesse meio tempo ele parou com o escandalo e se concentro em suas batatas fritas. a mãe:"- em casa a gente conversa."o guri deve ter uns quatro anos. voltando aos valores, parece que há algum tempo nasciamos com um gene da obediencia e bons modos, nem em sonho eu daria um espetáculo desses, pois minha mãe sempre me deu uma excelente educação, que inclui como me comportar em público, hoje vejo esses projetos de gente mandando em gente imbecil como essa criatura.parece que por alguma mutação esse gene desapareceu. meu Deus, que futuro nos aguarda com uma geração sendo deseducada desse jeito? se uma mãe permite que essa criança a trate dessa maneira imaginem como ele não tratará aos outros? em meio a essa revolta toda, me vem a lembranças das pessoinhas maravilhosas citada no titulo, crianças lindas, amaveis, educadas, claro que com suas birras de crianças, afinal não são robos, mas simplesmente apaixonentes, para me lembrar que nem tudo está perdido. parabéns Michelle e Roustaing, Tatiana e Amarante, Genice e George por serem pais de Rafa e Sammi, Rodrigo e Geovana. ainda bem que eles, e milhões de outros eu creio, existem.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

trabalhar custa caro

Por incrível que pareça,trabalhar custa caro. Após um longo período em férias involuntárias e não remuneradas, finalmente consigo um emprego, oba, que maravilha! isso sem dúvida foi uma ótima noticia, até aparecerem os primeiros problemas:
Problema número um: durante vinte e seis dias por mês terei que pagar cinquenta e duas passagens de transporte coletivo para chegar ao trabalho e voltar pra casa, para isso seria necessário que eu possuisse R$ 104,00, detalhe: não dá pra pagar passagen com cartão de crédito ou cheque, muito menos pedir pra anotar no caderninho, solução pedir dinheiro emprestado.
Problema numero dois: lá chegando, percebo que o vestuário das funcionárias´vai muito além do meu jeans básico com regata e sapatilhas, fico escondida em um cantinho fazendo de tudo pra não ser vista, foi impossível . A cada hora eu era apresentada a alguém, graças a Deus, pessoas muito educadas para me constranger (como se eu precisasse da ajuda de alguem pra isso), saio do trab e vou a uma loja bem conhecida na cidade onde se pode comprar umas peças mais alinhadas sem comprometer todo o orçamento e o limite do banco, adquiro o básico do básico, uma calça e uma bermuda de alfaiataria e cinco blusas de popeline bem arrumadas, e uma sandalia chique e confortável de salto médio, lá se vão R$ 280,oo (pelo menos deu pra pagar com cartão).
Problema numero tres: aparencia é quase tudo, minhas colegas de sala muito alinhadas com cabelos bem cuidados, sobrancelhas perfeitas, unhas impecáveis, perfumadas e maquiadas. Isso me fez lembrar que há meses não frequento um salão, então comprei uns produtos pro cabelo (salão está fora de cogitação) R$ 60,00, sobrancelhas e unhas (que não me arrisco fazer em casa), tres vezes por mês R$ 60,00. Pelo menos da depilação eu me salvei, há pelo menos dois anos eu comprei uma termocera e um depilador eletrico, então dá pra economizar uns R$ 50,00. ah, ainda tem a diarista que precisei contratar, pois acabo chegado em casa quase 9 hora da noite de segunda a sabado, quando não rola hora extra ou alguma viagem ( no minimo duas vezes por semana). R$ 200,00. Soma total R$ 704,00, exatamente 68% do meu salário. A Boa noticia? esse tombo é só no começo, logo as coisas se arrumam. Mas, problemas à parte, graças a Deus não sou mais uma na estatistica do desemprego.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

BESOURO CORDÃO DE OURO

"- Não posso porque sou menino, não posso porque sou pobre, não posso porque sou preto...
- Um dia voce vai crescer e virar homem, rico, o mundo dá muitas voltas, um dia voce pode ser mas, preto, com muito orgulho de sua cor, voce vai ser pra sempre e nunca deixe ninguém lhe diminuir por causa disso."
assim começa o filme Besouro, pra mim o melhor de 2009. Esse dialogo entre o menino Emanuel e mestre Alípio, reproduz tudo que por minha vida inteira me vai na alma: Preta sim senhor, e com muito orgulho de minha cor. Pela primeira vez assisti a um filme onde a figura do negro não aparece estereotipada e sim nua e crua, relato fidedigno de uma história de luta e resistencia, não é um filme pra o publico rir do negro ignorante engraçado, o bobo da corte, nem da boa cozinheira que sabe fazer deliciosos quitutes africanos, nem da mulata gostosa que dança samba e mostra as coxas e seios soltos embaixo de batas, nem da mãe de santo que faz ebós e joga búzios. Besouro conta a história real de negros e negras que, embora "alforriados" continuavam vivendo como escravos, que se scondiam para praticar seu culto e celebrar suas tradições mas, como sempre, lutavam para superar a opressão e manter viva sua identidade. Um filme para ficar nos anais, para que as futuras gerações saibam a história que os livros não contam, conheçam os verdadeiros heróis, aqueles preteridos pela cultura branca, que não aparecem nas enciclopédias e nem possuem dia cívil, mas que deram sua vida para que hoje eu pudesse dizer : preta sim, com muito orgulho. Heróis como BESOURO CORDÃO DE OURO.